Mulheres espiãs nas trincheiras da Guerra do Vietnã

Hue, Vietnam, 25 Jan 2018 (AFP) - Ser vendedora de chapéus era um disfarce perfeito para as espiãs instaladas no sul do Vietnã durante a guerra. Foi com esse estratagema que Nguyen Thi Hoa passou várias informações para os comunistas, antes de pegar em armas.

E seus relatos detalhados fornecidos para os oficiais militares do Norte tiveram um papel importante na preparação da grande ofensiva do Tet.

Seu trabalho e seu fervor nacionalista lhe valeram um lugar na unidade ultrassecreta chamada "Rio dos perfumes", uma unidade de combate composta apenas de mulheres que participou desse ataque surpresa e na Batalha de Hue, em janeiro de 1968.

Adolescentes em sua maioria, o lema dessas 11 mulheres era: "Quando o inimigo entra em sua casa, até as mulheres devem lutar".

"Queria me libertar, libertar minha Pátria e libertar outras mulheres... O único caminho era se unir à Revolução", explica essa mulher, com 17 anos em 1965, quando se tornou espiã.

Na época, nunca comentou com sua família sobre suas missões.

No início, como milhares de mulheres envolvidas na Guerra, as integrantes da unidade do "Rio dos Perfumes" faziam missões longe do front, atuando como espiãs, guias, cozinheiras, mensageiras, ou enfermeiras.

Tudo mudou, porém, com a chegada da guerra a Hue.

A antiga capital imperial e então terceira maior cidade do Vietnã foi poupada dos combates até a explosão da ofensiva do Tet, lançada por mais de 80.000 combatentes norte-vietnamitas.

Esse ataque foi um duro golpe para as tropas americanas e para seus aliados do sul, deixando baixas dos dois lados. Nas fileiras do Norte, foram mais de 58.000 mortos. E, pela primeira vez, os EUA ficaram na defensiva.

- 'Todos no front' -A Batalla de Hue foi a mais longa e a mais letal da Guerra. Durou 26 dias.

E foi preciso esperar dez dias até a unidade "Rio dos Perfumes" ser enviada para o combate, no momento em que o Norte havia perdido o controle da cidade.

"Isso demonstra até que ponto estavam desesperados", afirma Mark Bowden, autor do livro "Hue 1968".

"Quando as tropas do front começaram a cair, e a situação era realmente desesperadora, todo o mundo foi enviado para a batalha, e essas jovens lutaram", acrescentou.

Armada com granadas e com uma AK47, Hoa se sentia orgulhosa de participar dos combates.

"Não parávamos de atirar. Estávamos muito perto do inimigo", lembra essa mulher de 68 anos.

Seus esforços foram elogiados pelo líder comunista Ho Chi Minh, falecido em 1969, antes do fim da Guerra. Eles lhes escreveu um poema em agradecimento por terem "esmagado os ossos" dos soldados americanos.

"Quando recebemos esta carta, todo o mundo chorava. Não esperávamos. Éramos apenas uma pequena unidade", contou.

"Pessoas morreram, mas nós ainda estávamos vivas e até recebemos cumprimentos do Tio Ho", relembra Hoang Thi No, que lutou com Hoa e visita com frequência o túmulo de suas camaradas caídos no front.

"Quando minhas camaradas morreram em combate, minha raiva aumentou e também minha determinação para combater e vingar nossas irmãs", declarou essa mulher, que hoje é avó.

Essa unidade se tornou um símbolo e "fonte de motivação", explica o diretor do Museu da Revolução em Hue, Cao Huy Hung.

"Sem o apoio das mulheres, certamente não teríamos conseguido resistir por 26 dias", garantiu.

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