Turquia tenta calar as vozes críticas da ofensiva na Síria

Ancara, 30 Jan 2018 (AFP) - As autoridades turcas prenderam nesta terça-feira 11 integrantes de um sindicado de médicos que criticaram a ofensiva no norte da Síria, uma estratégia para silencia as vozes discordantes.

A União de Médicos da Turquia (TTB) anunciou que 11 membros da direção (conselho central) do sindicato foram detidos, entre eles o presidente Rasit Tükel.

A agência estatal Anadolu informou oito detidos e a emissão de ordens de prisão contra os outros três integrantes.

A Promotoria de Ancara abriu uma investigação contra a TTB depois que o ministério do Interior apresentou uma demanda contra o sindicato por ter publicado um comunicado que criticava, implicitamente, a ofensiva por representar um "problema de saúde pública".

O comunicado enfureceu o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que criticou a TTB no fim de semana.

"Dizendo não à guerra, dizem sim à tirania. É uma bazófia, a esta posição desonrosa que devemos dizer não".

Com mais de 83.000 membros, a TTB é uma das principais associações de médicos na Turquia. Na sexta-feira, o sindicato afirmou ter recebido ameanaças.

Os diretores da TTB detidos são suspeitos, segundo a Anadolu, de "legitimar as ações de uma organização terrorista, de elogiar crimes e criminosos e de incitação ao ódio".

Na segunda-feira, o ministério da Saúde pediu à justiça a destituição dos membros do conselho central da TTB.

"A TTB se torniu alvo por ter expressado uma posição perfeitamente legítima de oposição à operação militar em Afrin", declarou à AFP Andrew Gardner, pesquisador da Anistia Internacional especializado em Turquia.

"O governo turco deveria ter protegido o sindicato, porque seus membros e escritórios foram alvos de ameaças. As últimas detenções apenas alimentam a campanha contra eles", completou.

Desde 20 de janeiro, a Turquia realiza uma ofensiva na região de Afrin, noroeste da Síria, contra a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG), considerada "terrorista" por Ancara, mas uma aliada importante dos Estados Unidos na luta contra o grupo Estado Islâmico (EI).

As YPG estão ligadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo que trava uma guerrilha em território turco desde 1984 e que Ancara e seus aliados ocidentais consideram "terrorista".

Desde o início da operação, Erdogan defende a unidade nacional e afirma que os que se manifestam contra a ofensiva pagarão "um preço muito caro".

Mais de 300 pessoas foram detidas sob a acusação de "propaganda terrorista" nas redes sociais contra a operação em Afrin.

Vários líderes locais do partido pró-curdo da Turquia, o HDP, também foram detidos desde o início da ofensiva.

O HDP pediu à comunidade internacional uma "ação imediata" para acabar com a operação turca, que chamou de "invasão".

Além do comunicado da TTB, um grupo de 170 pessoas, integrado por ex-ministros, atores e escritores, assinou uma carta que pede o fim da guerra. Erdogan chamou de "traidores" os signatários do texto.

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