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Cidade síria de Khan Sheikhun ainda sob o impacto de um ataque químico

02/04/2018 15h37

Jan Sheijun, Syrie, 2 Abr 2018 (AFP) - Este ano, em 4 de abril, Abdelhamid Yussef não celebrará o aniversário de seu casamento. Em uma casa vazia, onde vive só, recordará sua esposa e seus dois filhos, mortos em uma ataque químico na cidade síria de Khan Sheikhun, na mesma data em 2017.

Um bombardeio aéreo com gás tóxico atribuído ao regime de Bashar Al-Assad deixou 80 mortos, entre eles 30 crianças. Este ataque em Khan Sheikhun foi um dos mais atrozes sofridos pela Síria, um país devastado desde 2011 por uma guerra sangrenta que deixou 350.000 mortos.

Esse bombardeio provocou, além disso, uma resposta inédita de Washington, embora o regime de Damasco tenha negado qualquer responsabilidade. Dias depois, os Estados Unidos lançaram 59 mísseis de cruzeiro contra uma base síria da qual, segundo o Pentágono, os aviões teriam decolado.

"Me privaram de parte do meu corpo, da minha alma. Minha vida não tem sentido, após tê-los perdido" diz Yussef, jovem viúvo de 29 anos, no jardim de sua casa vazia.

Uma foto do jovem pai segurando os corpos sem vida de Aya e Ahmed, seus dois gêmeos de 11 meses, deu a volta ao mundo, gerando profunda comoção.

Além dos filhos, perdeu sua mulher e viu vários familiares morrerem - um irmão, sobrinhos e primos. No total, 19 pessoas.

Sua sede de vingança é inesgotável.

- "Criminoso em liberdade" -"Não vou esquecer o passado enquanto o criminoso estiver livre", diz Yussef entre soluços. "Bashar al-Assad tem que prestar contas".

Outro sobrevivente daquele ataque é Ahmed Al Yussef, de 20 anos, que perdeu seus pais e seus dois jovens irmãos, Mohamed e Amar.

O dia de 4 de abril permanecerá para sempre gravado em sua memória: sua mãe, que o desperta para que vá rezar, e ele, que se dirige às terras de seu avô, mas volta rapidamente para a sua rua após o bombardeio. E um vizinho, sentado no chão, trêmulo e incapaz de falar, mas que olha para ele fixamente.

"Não posso esquecer esse dia, nenhum de seus detalhes. Era um inferno", diz Ahmed, que se encarrega agora, sozinho, do supermercado familiar.

"Perdi minha família, o que mais amava no mundo. Hoje estou sozinho, não os esqueço jamais, quando saio ou volto para a minha casa sempre estão lá, na minha frente", diz.

Nas últimas semanas, o regime foi acusado novamente de supostos ataques químicos em territórios rebeldes. Uma vez mais, os Estados Unidos e a França ameaçaram com represálias. Mas os habitantes de Khan Sheikhun não têm ilusões.

"Nada mais me anima a seguir vivendo", diz o jovem Mohamed al Jawhara, que perdeu seus pais, um sobrinho e vários primos.

"Foi um choque. A sua alma não pode suportar ver todos eles morrerem no mesmo dia", lamenta este estudante de 24 anos, que quer ser professor.

Diante da falta de reação da comunidade internacional, ele também é incapaz de esconder sua frustração.

"Naquele momento, pensávamos que Bashar Al Assad estava acabado. Tínhamos esperança de que fosse julgado e que prestasse contas. Acreditávamos que os mártires tinham morrido pelo bem do país, que a guerra na Síria ia acabar", lembra.

"Infelizmente, o mundo fez declarações e mais declarações, mas no fim das contas, demostrou sua fraqueza. E não aconteceu nada com Bashar Al Assad".