Rússia, Irã e Turquia, a aliança dos grandes interesses na Síria

Ancara, 2 Abr 2018 (AFP) - Turquia, Rússia e Irã, cujos líderes se reúnem nesta quarta-feira (4) em Ancara em uma cúpula dedicada à Síria, tornaram-se os donos do tabuleiro desse país devastado pela guerra, diante da irrelevância de Washington e de seus aliados.

Em janeiro de 2017, esses três países lançaram o processo de Astana, sem os Estados Unidos, competindo, assim, com outras negociações patrocinadas pela ONU.

Esse processo permitiu chegar a um acordo sobre a criação na Síria de quatro "zonas de distensão" que reduziu a violência em alguns setores.

A busca de uma solução para o conflito sírio está paralisada, porém, devido aos interesses contraditórios de Moscou, Ancara e Teerã.

Segundo Sinan Ulgen, presidente do Center for Economics and Foreign Policy (Edam), baseado em Istambul, esses três países constituem as principais forças presentes na Síria, "pois estiveram dispostas a investir recursos militares para influenciar o conflito".

"As forças ocidentais não quiseram intervir militarmente. Agora, a Síria está dividida em diferentes zonas que refletem a presença desses países", acrescenta o professor ouvido pela AFP.

Depois de ficarem ao lado de grupos da chamada oposição "moderada" contra o governo sírio, os Estados Unidos agora concentram seus esforços na Síria para lutar contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), com o apoio das milícias curdas. Washington já abriu mão, contudo, de influenciar o conflito até ver seu fim.

Em 30 de março, o presidente Donald Trump chegou a afirmar, inclusive, que os EUA vão-se retirar da Rússia "muito em breve", no momento em que o EI está perto de ser totalmente derrotado.

- Suporte do governo Assad -Rússia e Irã são os principais apoiadores do governo do presidente Bashar al-Assad e o ajudaram a reconquistar mais da metade do território sírio.

Já a Turquia diz ter "controlado", com a ajuda de rebeldes sírios aliados, cerca de "2.000 quilômetros quadrados" no norte da Síria, durante uma operação realizada entre agosto de 2016 e março de 2017.

E, desde janeiro, trava uma ofensiva contra as Unidades de Proteção Popular (YPG), uma milícia curda aliada de Washington na luta contra o EI, mas considerada "terrorista" por Ancara. Em 18 de março, o bastião curdo de Afrin foi conquistado pelos turcos.

"O processo de Astana é um meio pelo qual Turquia, Rússia e Irã tentam administrar a guerra e atender a seus diversos interesses", opina Elizabeth Teoman, analista do Institute for study of war (ISW).

Segundo ela, a Turquia busca controlar o território para implantar rebeldes afins, enquanto o objetivo da Rússia é "proteger as bases navais e aéreas russas no mar Mediterrâneo".

- Fragilizar a Otan -Vários especialistas interrogados pela AFP destacam a vontade de Moscou e Teerã de se aproveitarem das crescentes tensões entre Turquia e Estados Unidos - dois aliados da Otan -, em particular pelo apoio de Washington às YPG.

Assim, o presidente turco expressou claramente sua vontade de prosseguir sua ofensiva na Síria, indo até Minbej, cidade controlada pelas YPG, e onde também há soldados americanos.

"Moscou espera provavelmente dirigir a ira da Turquia contra os Estados Unidos (...) Isso serviria aos interesses russos na Síria e, ao mesmo tempo, mais globalmente, ao criar fissuras na Otan", afirmou Aron Lund, da Century Foundation.

Segundo Teoman, "Rússia e Irã podem estimular a Turquia a lançar, prioritariamente, operações que possam pôr em risco as forças americanas, cortar seus abastecimentos, ou limitar sua estratégia".

Permanecem, contudo, pontos de divergência entre os três países, em parte porque eventualmente apoiam lados opostos.

Como consequência, poucos resultados são esperados da cúpula de Ancara entre o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e seu colega russo, Vladimir Putin, e o iraniano, Hassan Rohani.

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