Laboratório britânico diz não ter provas de que gás neurotóxico seja russo

Londres, 3 Abr 2018 (AFP) - O chefe do laboratório militar britânico de Porton Down, Gary Aitkenhead, afirmou que não foi possível determinar que o agente neurotóxico usado para envenenar o ex-espião russo Serguei Skripal proceda da Rússia.

"Fomos capazes de identificar que se trata de Novichok, de identificar que foi um agente neurotóxico de tipo militar", afirmou em uma entrevista à Sky News nesta terça-feira (3).

"Mas não identificamos sua origem exata", acrescentou.

Disse ainda que o governo britânico utilizou "várias outras fontes para chegar a suas conclusões", segundo as quais a Rússia seria a responsável pelo ataque, algo que Moscou nega enfaticamente e que levou à mais grave crise diplomática entre Ocidente e Oriente desde a Guerra Fria e à expulsão de cerca de 300 diplomatas de uma e outra parte.

"Nosso trabalho é proporcionar provas científicas para identificar o agente neurotóxico em questão, mas não é trabalho nosso dizer onde foi produzido", explicou Aitkenhead.

Mas considerou que sua fabricação necessita "de métodos extremamente complexos, algo que apenas um ator estatal tem capacidade para fazer".

O governo britânico respondeu rapidamente lembrando que os investigadores de Porton Down constituem somente "uma parte dos serviços de informação" a sua disposição.

"Durante a última década, sabemos que a Rússia buscou meios de produzir agentes neurotóxicos com fins de assassinato, e produziu e armazenou pequenas quantidades de Novichok", afirmou um porta-voz do Executivo em comunicado.

O cientista desmentiu, por outro lado, as acusações de Moscou, segundo as quais o agente neurotóxico poderia proceder justamente do laboratório militar britânico.

"É totalmente impossível que proceda de nós ou tenha saído de nosso laboratório", enfatizou.

- OPAQ é acionada -Diante das acusações de Londres, Moscou solicitou uma reunião à Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) para tratar das alegações britânicas.

"O presidente do Conselho Executivo recebeu um pedido do representante permanente da Rússia para convocar uma reunião extraordinária em relação ao incidente de Salisbury (Inglaterra)", segundo o documento.

Esta reunião, que será realizada nesta quarta-feira, na sede OPAQ em Haia, foi definida por Londres como "tática de distração".

"Essa iniciativa russa é uma nova tática de distração, que visa a dificultar o trabalho da OPAQ", declarou o Ministério das Relações Exteriores, em um comunicado.

O presidente russo Vladimir Putin declarou nesta terça esperar que a reunião da OPAQ ponha um ponto final na questão.

"Causa surpresa a velocidade com que se lançou uma campanha antirrussa" motivada pelo incidente, afirmou Putin, em visita à Turquia. "Amanhã convocaremos uma reunião da OPAQ para analisar esta situação (...) Espero que isso (a reunião) permita por um ponto final", acrescentou.

"Segundo especialistas internacionais, tais substâncias neuroparalisantes podem ser fabricadas em cerca de 20 países do mundo", assegurou Putin.

"Temos interesse em uma investigação completa e que autorizem a Rússia a participar dessa investigação", insistiu.

Serguei Skripal foi envenenado juntamente com a filha, Yulia, no dia 4 de março em Salisbury com um agente derivado, segundo as autoridades britânicas, de um programa químico do período soviético.

Londres considera que a responsabilidade de Moscou neste caso é a única explicação plausível.

O chanceler russo, Serguei Lavrov, por sua vez, insinuou na segunda que Londres pode estar por trás do envenenamento, ao afirmar que o caso ajuda o país a criar uma distração para os problemas ao redor do Brexit.

A justiça britânica autorizou em 22 de março a coleta de amostras de sangue dos Skripal, o que deve permitir que a OPAQ realize a própria análise da substância utilizada no envenenamento. Londres afirma que é um agente da família Novichok.

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