Caravana 'Via-crúcis Migratória' desiste de chegar à fronteira americana

Matías Romero, México, 4 Abr 2018 (AFP) - A 'Via-crúcis Migratória' de mais de 1.000 centro-americanos que percorre o México e que enfureceu o presidente americano, Donald Trump, terminará seu trajeto na capital mexicana e não na fronteira com os Estados Unidos.

"Nosso trabalho termina na Cidade do México e se outras pessoas precisarem de acompanhamento, teremos uma equipe de apoio na fronteira, mas terão que viajar por conta própria", indicou à AFP Irineo Mujica, diretor da ONG Pueblo sin Fronteras, que desde 2010 realiza esta simbólica marcha para dar visibilidade ao drama dos migrantes.

A caravana partiu em 25 de março de Tapachula, Chiapas, na fronteira com a Guatemala, e já percorreu várias cidades mexicanas como Irapuato, Guadalajara, Tepic, Mazatlán e Culiacán.

Dezenas de migrantes que viajam com a caravana, parada desde o último fim de semana em Matías Romero, no estado de Oaxaca, preparavam-se para seguir por conta própria o percurso até a fronteira. Alguns deles têm visto para transitar pelo México por 30 dias.

Cerca de 80% são hondurenhos, e os outros, guatemaltecos, salvadorenhos e nicaraguenses.

A "Via-crúcis Migratória", que há 10 anos busca conscientizar sobre as agressões e os maus-tratos sofridos por milhares de pessoas na rota aos Estados Unidos, costuma ser realizada em trechos curtos dentro do território mexicano.

Mas, este ano, o protesto chegou aos ouvidos de Trump, que desde domingo escreveu diversos tuítes enfurecidos.

O presidente americano advertiu que a "galinha de ovos de ouro do Nafta", em plena renegociação, estava em jogo e ameaçou militarizar a fronteira de mais de 3.000 km com o México.

"Até que possamos ter um muro e uma segurança adequada, vamos proteger a nossa fronteira com o Exército. É um grande passo", disse a jornalistas na terça-feira. "Não podemos permitir que as pessoas entrem ilegalmente em nosso país", continuou.

- México, destino final da maioria -Trump assegurou que suas ameaças fizeram com que o governo mexicano dispersasse a caravana, que começou em Tapachula, na fronteira com a Guatemala.

No entanto, a chancelaria mexicana garantiu que o movimento estava se desfazendo por causa da "decisão de seus participantes".

Os líderes da 'Via-crúcis' asseguraram que o governo mexicano não atacou seus membros antes ou depois das declarações acaloradas de Trump.

A decisão de não chegar à fronteira com os Estados Unidos deve-se ao alto número de migrantes envolvidos, cerca de 1.500, segundo Mujica.

"Viajam muitas crianças, 450 (...) e subir no trem, como fazíamos antes, seria uma loucura", acrescentou Mujica.

"O que eles querem é um lugar para viver em paz, onde possam trabalhar sem serem apontados com uma arma, sem serem recrutados por gangues", disse ele.

"Acredito que 80% dos migrantes vão ficar no México, que já se tornou um país de destino", acrescentou.

Até agora, o Instituto Nacional de Migração (INM) mexicano entregou mais de 230 vistos de trânsito e espera a emissão de mais 200 nesta quarta-feira.

Humberto Velázquez, um jovem hondurenho de 25 anos, está à espera de um visto. Ele planeja ir para Monterrey, no norte do México. "Um amigo me prometeu trabalho", disse.

Mas se não conseguir os documentos, arriscaria seguir adiante ilegalmente.

- Reação histérica -A caravana instalou um acampamento em campos de futebol de Matías Romero, perto da linha férrea, onde passa o trem que para o norte.

À noite, os centro-americanos dormem abraçados aos seus poucos pertences, que usam de travesseiro.

Esperam seguir na quinta-feira para a cidade de Puebla, no centro do México, a mais de 550 km de distância e onde esperam advogados para aconselhá-los sobre se podem ou não requerer asilo no México ou nos Estados Unidos. Depois, vão partir para a capital do país.

Para o ex-ministro das Relações Exteriores Jorge G. Castaneda, a reação de Trump tem sido "um pouco histérica" diante da perspectiva de os republicanos perderem sua maioria na Câmara nas eleições de novembro.

O presidente dos Estados Unidos "está mobilizando a base conservadora com esta questão que o levou à presidência", apontou à Radio Formula.

"É uma manobra que apela aos piores sentimentos da sociedade americana", acrescentou, lembrando que pelo menos dois de seus antecessores enviaram a Guarda Nacional para a fronteira com o México.

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