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Najafi Aghdam e o ódio que a levou a atacar funcionários do YouTube

04/04/2018 16h30

San Francisco, 4 Abr 2018 (AFP) - As autoridades chegaram cedo nesta quarta-feira (4) à casa da família de Nasim Najafi Aghdam, a mulher que odiava tanto o YouTube que no dia anterior foi à empresa e começou a disparar contra os seus funcionários.

Feriu três pessoas, uma das quais está em estado crítico, antes de se suicidar.

Investigadores da agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos foram de manhã à casa da família de Aghdam, na cidade de Menifee, a cerca de 727 quilômetros de San Bruno, onde ocorreu o ataque a tiros na terça-feira por volta da hora do almoço, informaram meios de comunicação locais.

Aghdam, de 39 anos, moradora de San Diego, cerca de 800 km mais ao sul, abriu fogo em um pátio aberto da empresa, gerando caos.

Centenas de funcionários saíram correndo, outros se abrigaram nos escritórios. A polícia cercou o complexo tecnológico para vasculhar o local.

O funcionário Salahoden Abdul-Kafi escreveu nas redes sociais que a atiradora, que inicialmente se pensava ser um homem, "vestia uma máscara de tiro e uma armadura de corpo inteiro, e andava calmamente, disparando com uma pistola".

Raramente as mulheres são responsáveis pelos muitos ataques a tiros ocorridos a cada ano nos Estados Unidos. Segundo uma análise do FBI, dos 160 ataques a tiros entre 2000 e 2013, as mulheres abriram fogo apenas seis vezes, ou seja, em 3,8% dos casos.

A polícia informou em um comunicado que "não há evidências de que a atiradora conhecesse as vítimas" ou que tivesse alguém concreto em sua mira. Ainda não foi determinado uma motivação claro.

- 'Tinha muita raiva' -O pai da atiradora, Ismail Aghdam, que emigrou do Irã com sua família em 1996, disse em entrevista ao Mercury News que reportou a filha como desparecida e indicou que ela "tinha muita raiva" da empresa. Falou inclusive de ódio contra o YouTube.

A mulher era uma produtora de conteúdo vegano, que denunciou a companhia por censurar seus vídeos.

"Não existe liberdade de expressão no mundo real e te impedirão de dizer a verdade se você não tiver o apoio do sistema", teria escrito em um site. "Não existe oportunidade de crescer no YouTube".

"Ela sempre se queixou que o YouTube arruinou a sua vida", disse Ismail Aghdam, assegurando não saber que sua filha tinha uma pistola. "Possivelmente comprou uma".

O YouTube - que é propriedade da Google - informou que na própria terça-feira fechou os canais da mulher devido a "graves violações" das regras da empresa.

Suas publicações abordavam maus-tratos a animais e à causa vegana em inglês, turco e persa, mas ela também postava vídeos fazendo exercícios e cantando.

"Estou sendo discriminada (...) pelo YouTube. Restringiram para maiores de idade meu vídeo de abdominais, um vídeo que não tem nada de mau, nada sexual", afirmou a mulher.

Também se queixou que o gigante tecnológico a privou injustamente dos lucros obtidos em seu site.

Uma foto publicada pela imprensa a mostrou em um protesto contra o uso de animais para treinamentos no Exército americano. Ela é vista vestida de preto com o rosto coberto de sangue falso e empunhando uma espada de plástico.

- 'Calma e cooperativa' -Os escritórios do YouTube estão localizados a 50 km do campus principal da Google, em Mountain View, onde Aghdam foi abordada pela polícia horas antes do ataque a tiros.

Era madrugada de terça-feira e a mulher dormia em seu carro. Os oficiais a interpelaram respondendo ao relato de desaparecimento no escritório do xerife de San Diego, mas não viram motivos para detê-la.

"Durante toda a interação estava calma e cooperativa", indicou um comunicado do corpo policial. No interrogatório disse que "havia decidido deixar sua família alguns dias antes devido a problemas familiares".

"Em nenhum momento durante os 20 minutos de interação mencionou algo sobre o YouTube, sobre seu incômodo com eles, nem que planejava se ferir, ou ferir outras pessoas".

A polícia de Mountain View ligou para a família para informar do contato. "Em nenhum momento o pai ou o irmão mencionaram nada sobre possíveis atos de violência, ou a possibilidade de que Aghdam pudesse se virar contra alguém por conta dos problemas com seus vídeos".

O ataque a tiros acontece em meio a um acalorado debate sobre a necessidade de controlar o porte de armas nos Estados Unidos.

Estima-se que 1,5 milhão de pessoas tenham participado das manifestações em todo o país em 24 de março pedindo leis mais estritas com relação às armas, após um ataque a tiros fatal em uma escola, em fevereiro, em Parkland, na Flórida.