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Lula, o herói operário rumo à prisão

05/04/2018 00h48

São Paulo, 5 Abr 2018 (AFP) - Foi um menino pobre que venceu a fome, um metalúrgico que seduziu o mundo com seu Brasil imparável, e agora um condenado por corrupção a caminho da prisão. Luiz Inácio Lula da Silva já teve muitos papéis, e ao 72 anos pode iniciar o menos glorioso de todos.

O destino de quem Barack Obama chamou, há uma década, de "o cara", ficou ainda mais sombrio nesta quarta-feira (24), quando o Supremo Tribunal Federal negou um habeas corpus para evitar a prisão de Lula por uma condenação a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.

A decisão compromete ainda mais os planos de Lula de voltar à presidência nas eleições de outubro.

Favorito nas pesquisas, Lula se considera vítima de um pacto das elites para impedir que vença as eleições de outubro, em uma guerra que começou em março de 2016 com a Polícia acordando-o ao amanhecer para levá-lo para depor.

Não houve volta atrás na tensa escalada que resultou, em julho, em sua primeira condenação a quase dez anos de prisão, depois de o juiz Sérgio Moro considerá-lo beneficiário de um apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo, oferecido pela empreiteira OAS em troca de contratos na Petrobras.

"Quando era criança, conheci a fome e nunca ousei roubar nem uma maçã. Como poderia roubar um apartamento?", afirmou Lula.

Com outros seis processos abertos, o confronto ressuscitou o combativo líder sindical, cuja trajetória não parou desde que deixou o chão de fábrica até ser eleito Presidente da República; mas os escândalos e a crise corroeram aqueles 87% de popularidade, com os quais deixou o Planalto, em 2010.

- 'Estrela de rock' -Nascido na aridez de Caetés, interior de Pernambuco, Lula conheceu desde criança o lado dramático da pobreza que castigava quase um terço dos brasileiros.

Sétimo filho de um casal de analfabetos, foi abandonado pelo pai antes de a família emigrar para a industrial São Paulo, assim como outros milhões de conterrâneos.

Ele foi vendedor ambulante e engraxate. Aos 15 anos, iniciou a formação como torneio mecânico, perdeu um dedo mindinho ao operar um torno mecânico, ao final dos anos 1970 liderou uma greve histórica que desafiou a ditadura militar (1964-85).

Brasília, no entanto, precisou esperar e foi derrotado em três ocasiões como candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que ele próprio cofundou em 1980.

Quatro anos antes, este sindicalista carismático havia se apresentado em uma conferência do economista Eduardo Suplicy. Na época, tinha formação de operário, mas queria saber tudo sobre distribuição de renda.

"O Lula tem uma capacidade de assimilar conhecimentos e de se pronunciar de uma maneira tão clara que conseguiu entusiasmar a população brasileira e, especialmente, porque ele sempre manteve um contato muito próximo com a população e inclusive com a população mais pobre", contou à AFP Suplicy, que também foi cofundador do PT e senador durante 25 anos.

O político a quem a revista Foreign Policy chamaria posteriormente de "estrela de rock da cena internacional", chegou finalmente à Presidência em 2003. Durante seus dois mandatos, empurrados pelo vento favorável da economia mundial, 30 milhões de brasileiros saíram da pobreza.

E coroou sua Presidência conseguindo a sede da Copa do Mundo de futebol de 2014 para o Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016 para o Rio de Janeiro.

- 'Sem limites' -Mas aqueles anos de glória foram a raiz dos problemas que o conduziram às portas da prisão, como muitos apontam e afirmou em setembro seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, agora preso por corrupção.

"[Lula] dissociou-se definitivamente do menino pobre retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem cítica (...), do poder sem limites", escreveu aquele que foi um dos mais influentes líderes do PT.

Os dois haviam sobrevivido juntos ao escândalo do Mensalão, em 2005, um esquema milionário de contabilidade ilegal para comprar o apoio de congressistas, após o que Lula desmontou a direção do partido.

Ele conseguiu se manter à margem, foi reeleito em 2006 e em 2010 carimbou a vitória de sua sucessora e afilhada política, Dilma Rousseff (destituída em 2016 pelo Congresso).

Pouco depois, foi diagnosticado com um câncer na laringe, do qual foi curado, embora a doença tenha deixado ainda mais rouca sua voz, que agora ergue para dizer que continuará lutando para voltar ao poder e restituir a honra de sua esposa, a falecida Marisa Leticia, citada com ele em alguns processos a que responde.