Bagdá, uma cidade sem sinais consistentes de reconstrução em 15 anos

Bagdá, 8 Abr 2018 (AFP) - Em Bagdá, a queda da ditadura de Saddam Hussein em 2003 despertou esperanças de uma promissora reconstrução. Passados 15 anos, porém, as obras que iriam, supostamente, facilitar a vida dos moradores da segunda capital mais povoada do mundo árabe ainda não começaram.

Em alguns bairros dessa cidade milenar, as gruas se oxidam lentamente desde a entrada dos soldados americanos no território, em 9 de abril de 2003, como se o tempo tivesse parado.

A cúpula de concreto da faraônica mesquita tão desejada por Saddam Husein continua aberta. Adiante, o lugar mais simbólico do antigo regime - a rotunda outrora coroada com a estátua do ditador demolida pelos americanos - ainda espera para ser removida.

Nos arredores, pontes, vias expressas e outras interseções da cidade e 900 quilômetros quadrados continuam cheios de buracos.

Em 2004 e em 2007, Washington e Bagdá mobilizaram financiadores e potências internacionais para conferências sobre o futuro do Iraque. Tanto os planos quinquenais quanto outras declarações permanecem, até hoje, no papel.

O dinheiro destinado às reformas acaba sendo desviado no 12º país mais corrupto, segundo ranking elaborado pela ONG Transparência Internacional.

- '40 mil ladrões' -Antes de 2003, "o tesouro da cova de Ali Baba estava nas mãos do ditador. Hoje, ele caiu, e 40 mil ladrões se apoderaram da cova", denuncia o professor Zuheir Uasmi, de 40 anos.

O aumento constante da população, devido ao êxodo rural e aos deslocados que fugiram da violência a partir de 2003, e a ausência de reformas urbanas complicaram a vida em Bagdá. As mesmas estradas e prédios públicos concebidos para uma cidade de 4,7 milhões de habitantes, em 2003, hoje atendem a 7,3 milhões de pessoas.

Além disso, o parque automobilístico explodiu, passando de 250 mil para mais de dois milhões de veículos.

O consumo de energia elétrica, que disparou com a chegada em massa de eletrodomésticos, computadores, antenas parabólicas e celulares, ainda é um problema considerável.

Há anos, seus habitantes contam mais com os geradores instalados em cada esquina por empresas privadas do que com as poucas horas diárias de energia elétrica.

Embora as infraestruturas herdadas de Saddam Hussein, ou da época da monarquia, continuem presentes, em um ou outro lugar floresceram prédios novos sem um verdadeiro planejamento urbano.

Por um lado, brotaram restaurantes, assim como os "malls", modernos shoppings internacionais muito frequentados pelas famílias, com seus parques recreativos, cinemas e cafés.

Por outro, na cidade, coração mítico da música, ou da literatura árabes, os centros culturais se assemelham cada vez mais a vestígios de outro tempo, sem reforma e sem manutenção.

A rua Rashid, os antigos "Champ-Élysées" de Bagdá, traçada durante a Primeira Guerra Mundial, cobriu-se "de paredes e de barreiras de concreto, instaladas entre os escombros", lamenta a arquiteta iraquiano-americana Raya Alanie.

Desde 2003, a cidade foi tomada de muros de concreto, que alguns grafites conseguiram mais ou menos animar ao longo dos anos. As instituições, públicas e privadas, e também restaurantes, cafés e lojas atingidos por atentados foram murados.

No ápice da violência confessional, de 2006 a 2008, rochas e blocos de concreto separavam setores em função das comunidades.

Hoje, a violência diminuiu enormemente, mas, embora centenas de ruas tenham sido reabertas, as barreiras continuam provocando intermináveis engarrafamentos.

- Cidade dentro da cidade -O patrimônio caiu no esquecimento.

"É desolador. É preciso renovar tudo", diz Alanie à AFP, relembrando a Idade de Ouro de Bagdá, "a primeira cidade que equipou casas com energia solar" nos anos 1980, na rua Abu Nawas, junto ao rio Tigre.

Na outra margem do rio, por trás das muralhes de concreto, emerge um pequena ilha de grama verde e de longas avenidas sem trânsito. A Zona Verde, onde os americanos estabeleceram seus quartéis em 2003, nos Palácios de Saddam Hussein, é proibida para praticamente qualquer cidadão iraquiano.

Apenas alguns privilegiados têm autorização para circular nessa "cidade dentro da cidade" ultravigiada, onde se situam as embaixadas britânica e americana e a sede do governo.

Em 2003, lembra Mohamad Al-Asadi, de 45 anos, "circulávamos na frente do Palácio presidencial e cruzávamos com as autoridades do alto escalão sem problema".

Para o empresário Sadeq Al Shomari, "indústria, educação, saúde, agricultura... tudo está pior do que na época de Saddam", mas uma coisa mudou: "hoje, podemos falar livremente e insultar quem quisermos".

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