Irlanda do Norte: uma paz frágil diante do teste do Brexit

Belfast, 9 Abr 2018 (AFP) - Vinte anos depois do acordo de Sexta-Feira Santa que acabou com a violência na Irlanda do Norte, o processo de paz continua sendo frágil e o Brexit provoca um temor sobre seu futuro, afirmam analistas.

Assinado em 10 de abril de 1998 pelos governos britânico e irlandês, com o apoio da União Europeia (UE) e dos Estados Unidos, o acordo acabou com 30 anos de um conflito violento que deixou mais de 3.500 mortos.

Quatro anos antes, um cessar-fogo no território em que estava mobilizado o exército britânico silenciou as armas entre os paramilitares nacionalistas, contrários à autoridade britânica, e os lealistas, partidários da união com Londres.

"Sou membro do Partido Trabalhista há 54 anos, parlamentar há 32, mas nada na minha vida se compara com as 17H30 de 10 de abril de 1998", recordou Paul Murphy, ministro britânico para a Irlanda do Norte de 1997 a 1999.

Desde então, a violência paramilitar se tornou residual, mas as comunidades se misturam pouco e a tensão política persiste entre unionistas e nacionalistas, que dividem o poder.

A situação é comprovada pela ausência de governo em Belfast há 15 meses e a implosão do Executivo em janeiro de 2017, formado desde 2007 pelo Partido Unionista Democrata (DUP) e o Sinn Féin, que não conseguem chegara um entendimento.

"Muitas pessoas perguntam quanto a Irlanda do Norte mudou realmente em 20 anos se as comunidade são tão divididas", disse à AFP Siobhan Fenton, autor do livro "The Good Friday Agreement", ainda não publicado.

- Texto não é definitivo -Para o ex-líder do Partido Unionista do Ulster (UUP) Mike Nesbitt, a divisão do poder em Belfast só funcionou bem por um ano", quando o reverendo Ian Paisley, do DUP, e Martin McGuinness, do Sinn Féin, antes inimigos, governaram juntos em 2007.

"Eles se entendiam tão bem que ficaram conhecidos como os 'Chuckle Brothers'", explica à AFP, em referência a uma famosa dupla de comediantes ingleses com programas voltados para as crianças na BBC.

Agora, lamenta que os atuais governantes não desejam fazer o esforço para o entendimento.

O texto de 1998 não é definitivo, destaca Siobhan Fenton, que indica que "deve ser adaptado regularmente aos acontecimentos e às mudanças da sociedade", o que levou a compromissos posteriores, como em 2007, após cinco anos de suspensão do governo.

"Se o acordo fosse perfeito, não estaríamos em crise, como estamos em Stormont", afirmou o deputado do DUP em Westminster Ian Paisley Jr, cujo partido foi contrário ao texto, por considerar que fazia muitas concessões aos nacionalistas.

"Era mais um compromisso engenhoso, no qual tudo estava sujeito à interpretação contínua", afirma Giada Lagana, doutora em Ciências Políticas da Universidade de Galway.

E isto provocou disputas e divergências recorrentes.

Os nacionalistas acusam o DUP de fazer um uso equivocado do mecanismo pensado para bloquear leis, prejudicando os direitos das minorias, que foi empregado, por exemplo, para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O Sinn Féinn é acusado de impedir o retorno do Executivo ao se recusar a participar do governo enquanto o DUP não se comprometer a atuar a favor de certas dispositivos que os nacionalistas consideram que integram os acordos de paz.

A deputada do Sinn Féin em Westminster Elisha McCallion afirmou que o texto estava sendo "atacado pelos conservadores britânicos e elementos do DUP", em referência à aliança que sustenta o governo de Londres, temendo a influência dos unionistas nas negociações do Brexit.

- E o Brexit? -O impacto do divórcio entre Londres e a UE no processo de paz norte-irlandês preocupa.

Billy Hutchinson, ex-combatente lealista convertido em líder do Partido Unionista Progressista (PUP) e partidário da permanência na UE teme a volta de uma fronteira física entre Belfast e Dublin, mas acredita que a UE "seguirá concedendo subvenções para resolver os problemas provocados pelo conflito".

Além disso, o Brexit acabaria com um espaço de diálogo para as partes do processo de paz porque "os únicos lugares em que foi possível chegar a um enfoque comum foram as instituições europeias", avisa Giada Lagana.

Para os nacionalistas, um referendo sobre a reunificação da Irlanda, cujo princípio está previsto no acordo de paz, resolveria a questão da fronteira. Mas esta consulta não possui atualmente o apoio da maioria.

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