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Corrupção será tema principal de Cúpula das Américas sem Trump

11/04/2018 13h26

Lima, Peru, 11 Abr 2018 (AFP) - O combate à corrupção vai assumir o primeiro plano em uma Cúpula das Américas sem Donald Trump, que queria transformar a reunião regional deste fim de semana, em Lima, em uma ofensiva diplomática contra o regime venezuelano de Nicolás Maduro.

A ausência do presidente americano tirou um pouco do brilho do encontro, já abalado por diversos problemas na região e pela difícil relação com o imprevisível governo de Trump.

Desde a criação da Cúpula das Américas pelo democrata Bill Clinton, em 1994, para promover o livre-comércio e os direitos humanos, esta será a primeira edição sem a participação de um presidente americano.

Segundo a Casa Branca, Trump ficará em Washington para "acompanhar a resposta americana à Síria" e "monitorar os acontecimentos em todo o mundo".

Quem irá à oitava edição do evento é o vice-presidente, Mike Pence, à frente de uma cúpula que inclui a filha do mandatário, Ivanka Trump. Segundo Washington, ela vai promover os direitos das mulheres.

A relação de Trump com a América Latina não foi fácil ao longo de sua presidência, especialmente com o México.

Além de ameaçar dar fim ao Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), em vigor desde 1994, e querer construir um muro na fronteira com o país latino, Trump voltou a atacar a imigração nos últimos dias. Sua ausência de Lima deve apenas aprofundar essa distância.

"Pela primeira vez em muitos anos, os Estados Unidos deixaram de ter uma agenda proativa com a América Latina, e essa decisão só reafirma essa posição", critica a analista política peruana residente no Chile Lucía Dammert.

"Para Trump, a América Latina, com a possível exceção do México, está no nível de um vice-presidente. A mensagem, que todos mais ou menos intuíamos, agora não pode ficar mais clara. E é assim que a região vai ler. Bem como a China", disse à AFP Kevin Casas, ex-presidente da Costa Rica e diretor da Análitica Consultures.

Com uma troca comercial cada vez mais forte e a crescente presença da China na região, a Américan Latina está migrando dos Estados Unidos protecionistas de Trump para mirar cada vez mais na Ásia. Um exemplo é o Acordo de Associação Transpacífico (TPP), assinado em março por 11 países, entre eles Chile, Peru e México.

Neste contexto, a América Latina vê com preocupação a guerra comercial declarada por Trump à China, que questionou na Organização Mundial de Comércio (OMC) as tarifas impostas por Washington ao aço e ao alumínio chineses.

- Venezuela na mira -Após viajar no ano passado para se reunir com os presidentes de Argentina, Chile, Colômbia e Panamá para ampliar a pressão sobre Maduro, Pence espera alcançar "de forma coletiva que os atores antidemocráticos da reunião prestem contas por suas ações".

Maduro não irá à cúpula. "Não está convidado, nem lhe deixaremos entrar na cúpula", disseram à AFP fontes oficiais peruanas.

Um grupo de países, liderados pelo Grupo de Lima, foi criado para promover a democratização da Venezuela, trabalham para "não reconhecer os resultados eleitorais" da eleição presidencial de maio, boicotada pela oposição.

Para Washington, a Venezuela "é o problema mais urgente deste hemisfério neste momento", disse recentemente um alto funcionário do Departamento de Estado.

- Corrupção -A ausência de Trump poderia fazer outros presidentes da região desistirem de ir, incomodados com a agenda de uma cúpula que tem como tema central uma corrupção.

Recentemente, escândalos de corrupção derrubaram o presidente peruano, Pedro Pablo Kuzcynski, - substituído por seu vice-presidente Martín Vizcarra - e levaram à prisão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Será uma cúpula de "feridos, mais que de grandes líderes", como descreveu Dammert. Os organizadores esperam cerca de 20 mandatários, entre eles, os de Brasil, Chile, Equador, Colômbia, Canadá, Panamá e Honduras.

Os organizadores esperam também a presença do cubano Raúl Castro, que deve deixar o poder no fim de abril, após a histórica foto há três anos no Panamá junto do então presidente americano Barack Obama, quem promoveu uma aproximação com a ilha, agora desfeita por seu sucesso na Casa Branca.

Mais de 2 mil pessoas participarão de diversos fóruns em Lima - povos indígenas, sociedade civil, jovens, parlamentos e empresários, em eventos paralelos que precedem a Cúpula.