Artistas pioneiras da América Latina participam de megaexposição em Nova York

Nova York, 12 Abr 2018 (AFP) - A cubana Ana Mendieta se autorretratou fazendo um "transplante de barba" com um amigo há mais de 40 anos, e no ano seguinte usou seu corpo nu em performances chocantes de um estupro real ocorrido em um campus universitário americano.

A panamenha Sandra Eleta fotografou empregadas domésticas, uma delas de uniforme, maquiada e reclinada em uma poltrona luxuosa com seu espanador como se fosse um leque exuberante, em uma evocação da ocupação militar americana e um canal onde os panamenhos só eram bem-vindos para servidão.

A brasileira Leticia Parente se filmou enquanto costurava em seu próprio pé a frase "Made in Brasil", uma autotortura em plena ditadura militar. A mexicana Ana Victoria Jiménez fotografou suas mãos limpando o vaso sanitário, cozinhando e dobrando roupa.

Durante a ditadura de Pinochet, a chilena Gloria Camiruaga fez uma videoarte com suas filhas, lambendo picolés coloridos que tinham soldadinhos de plástico dentro.

A colossal exposição "Mulheres radicais: arte latino-americana 1960-1985", com obras de artistas latino-americanas e hispânicas nos Estados Unidos, não muito conhecidas mas pioneiras na forma como representaram o corpo feminino, começa nesta sexta-feira no Museu do Brooklyn, em Nova York.

Em plena era do movimento #MeToo contra o abuso sexual e protestos na América Latina contra os trágicos números de feminicídios, a exposição apresenta cerca de 260 obras de mais de 120 artistas de 15 países que ampliaram o catálogo da arte contemporânea durante um período de grande agitação política e social e muita experimentação, com fotografias, vídeos, performances e instalações, assim como pinturas, esculturas e gravuras.

- Machismo na arte -"Não há um tabu", disse à AFP uma das curadoras, Cecilia Fajardo-Hill, que destaca a ideia do radicalismo. "Você pode falar do sangue menstrual, da tortura, ou fazer uma obra poética".

Para a curadora, "estamos em um momento em que brigamos pelos direitos das mulheres" e nesse contexto a exposição "adquire uma significação maior" e inspira jovens artistas que lutam por seus direitos e só encontram referentes homens nos livros de arte.

A cocuradora Andrea Giunta afirma que há "muito machismo no mundo da arte".

Giunta, parte do movimento "Nós propomos", que busca demonstrar a invisibilidade das mulheres artistas nas coleções dos museus, contou que levou sete anos para montar a exposição, e que durante os primeiros quatro enfrentou uma dura oposição.

Diziam-lhe que uma exibição deste tipo reforçaria "o estereótipo do machismo latino-americano", ou que não fazia sentido "porque as mulheres já foram valorizadas".

Mas pesquisou, obteve estatísticas e conseguiu seguir em frente com seus planos.

Segundo Giunta, no melhor dos casos as mulheres representam 30% do mundo da arte. Mas a média é de 16% na arte contemporânea.

- Sobreviventes -Na mostra, dividida em seções como "Resistência e medo", "Feminismos" ou "Erótico", as artistas processam suas experiências, que incluem a prisão, exílio, tortura, agressão sexual, racismo e maternidade.

Embora a exposição inclua artistas conhecidas, como a brasileira Lygia Pape e a argentina Marta Minujín, a maioria das obras pertencem a criadoras menos conhecidas, como a venezuelana Ani Villanueva.

Esta artista, que viajou especialmente de Caracas para a abertura da exposição, para em frente à sua obra, um vídeo de sua primeira performance pública, aos 28 anos.

"Eu sou esse quadro móvel", diz à AFP enquanto passam imagens dela totalmente coberta por um pano pintado por sua mãe, dançando.

"Vejo tudo isso e penso que somos realmente mulheres universais, não só latino-americanas", explica à AFP esta bailarina de 63 anos, que prepara agora uma instalação sobre a esperança com "mulheres guerreiras" na Venezuela.

"Eu sou uma sobrevivente da violência de gênero e de muitas coisas, mas estou tentando comunicar que você pode se elevar sobre a bondade ou da maldade e expressar sua liberdade interior de uma forma mais abstrata", diz.

A exposição, organizada pelo Museu Hammer de Los Angeles, poderá ser vista no Brooklyn até 22 de julho.

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