Buba Aguiar, do ativismo em Acari à vida no autoexílio

Rio de Janeiro, 12 Abr 2018 (AFP) - Desde que soube do assassinato de Marielle Franco, há quase um mês, a midiativista Buba Aguiar, do coletivo Fala Akari, precisou mudar sua vida. A vereadora era considerada "parceira política" do grupo e compartilhou a denúncia à truculência do 41º BPM, que atua na favela de Acari, dias antes de morrer.

Após o crime, "eu só pensei: fodeu. Pouco depois, a mídia começou a ligar a morte dela ao 41º BPM, e eu tive que sair de lá", relata Buba à AFP.

Desde então, a militante tem sido reconhecida nas ruas, por vezes com olhares fechados, em outras, com palavras de incentivo. Os dois tipos de manifestação a deixam ainda mais insegura.

"Além da perseguição política e policial, outro dia, por exemplo, me falaram: 'A culpa é sua, era você que devia ter morrido no lugar dela'. Isso é muito perigoso... Se a gente sai da razão e vai parar numa delegacia, pronto, é o que eles queriam", aponta a ativista, que até hoje não deu entrevistas à imprensa brasileira.

A tranquilidade de que precisa para viver, contudo, é difícil de alcançar. Buba espia muito sobre os ombros, mexe no celular, não se distrai e também conta ter dificuldades para dormir.

"Tenho que avisar a alguém quando vou à padaria, não posso andar de metrô. Tenho que sair de boné, sem óculos, escondendo minhas tatuagens. É muito cansativo", desabafa. "Como uma pessoa negra, moradora de favela, militante, já estou acostumada a ter direitos cerceados, principalmente o de ir e vir. Mas agora parece que é total".

Buba é um dos nomes à frente do Fala Akari, germinado em 2014, com uma rede mais ampla de moradores e midiativistas de diversas favelas cariocas.

Em setembro de 2015, o coletivo se firmou na comunidade, com a proposta de levar eventos culturais, rodas de discussão e expor as dificuldades da vida cotidiana ali - a principal delas, a violência policial.

"Quando a Marielle morreu, muita gente criticou a comoção questionando: 'Uma vida vale mais que outras?' A resposta é que sim, muitas vidas valem mais que as dos pretos, pobres e favelados", afirma a jovem estudante de Ciências Sociais - "como a Marielle", lembra.

Esta é a razão pela qual o grupo desaprova a intervenção federal na Segurança do Rio, que completou um mês em 16 de março.

"A gente sempre se posicionou contra a intervenção. Eles chegam, montam acampamento, humilham moradores", explica. "Combatemos essa política de preto matar preto porque os militares são em sua maioria jovens periféricos também".

Inspirada na vereadora, "que estava sempre sorrido", ela consegue, em meio ao caos, encontrar uma espécie de otimismo. "A gente tá falando há um tempo que só ia se mexer quando um de nós fosse morto. Quem mandou matar ela agora sabe que mexeu com muita gente, inclusive que tava quieta. Isso muda as coisas".

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