Chipre tenta frear invasão dos venenosos peixes-leão no Mediterrâneo

Bahía de Konnos, Chypre, 12 Abr 2018 (AFP) - Armados com um arpão e um bloco de notas submarino, Louis, Carlos e Antonias nadam a 25 metros de profundidade na baía de Konnos, no Chipre, com o objetivo de capturar os venenosos peixes-leão, que invadem o Mediterrâneo depois de terem colonizado o Caribe.

Depois de dois mergulhos em volta do "Platô" e das "grutas do Ciclope" estes biólogos marinhos do centro de pesquisa ambiental Enalia Physis voltam à superfície com cerca de 20 de espécimes com listras marrons e brancas e barbatanas peitorais em forma de leque.

O peixe, cujo nome científico é "Pterois miles", tem veneno nas espinhas dorsais, mas sua picada não é mortal.

Esta espécie, originária do Oceano Índico, apareceu no Chipre em 2012 e seu desenvolvimento no Mediterrâneo preocupa os cientistas, pescadores e mergulhadores.

"Hoje em dia, onde quer que você mergulhe em volta da ilha, vê (o peixe-leão) em massa", explicou à AFP Louis Hadjioannou, diretor de pesquisas no Enalia.

No Líbano, Alain Najem, que dirige um clube de mergulho, constatou a mesma coisa, e disse à AFP que cada vez que sai vê mais exemplares.

O peixe-leão, que ainda não foi identificado como predador no Mediterrâneo, foi detectado também na Grécia, Turquia e Tunísia.

"A invasão está em andamento" no Mediterrâneo oriental, confirmaram à AFP Demetris Kletou, diretor do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais (MER) e Jason Hall-Spencer, professor da Universidade de Plymouth, no Reino Unido.

O número "exponencial" de peixes-leão nesta região se explica pelo aquecimento da água e pelo fato de que o Canal de Suez, que foi ampliado em 2015 e conecta o Mediterrâneo com o Mar Vermelho, mais quente, facilitou a chegada de outras espécies.

- Uma linha de defesa -Por enquanto as costas ocidentais, mais frescas, não estão afetadas, detalhou Kletou, coordenador científico do Relionmed, um projeto piloto que busca transformar o Chipre na "primeira linha de defesa" contra esta espécie colonizadora. O projeto é financiado pelo programa europeu para a proteção da biodiversidade LIFE e é administrado pelo Enalia e pela Universidade de Chipre.

As espécies invasoras são uma das cincos principais causas da perda de diversidade no mundo, junto com fatores como a exploração excessiva dos recursos, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

O peixe-leão, que apareceu na década de 1980 no Atlântico, causou "danos significativos nas costas dos Estados Unidos e do Caribe", lembrou o biólogo marinho Carlos Jiménez, que trabalhou na região antes de viajar ao Chipre.

Só nas Antilhas francesas, o custo desta invasão é estimado em "mais de 10 milhões de euros por ano", segundo a consultora VertigoLab.

Os peixes locais, muitas vezes desconhecedores destas novas espécies dotadas de espinhas e veneno, deixam-se devorar já que não têm uma estratégia de defesa.

Em dois anos, os peixes-leão fizeram baixar em 65% o número de cerca de 40 espécies de peixes que vivem nos recifes de coral no oeste do Atlântico, segundo um estudo.

- Analisar os otólitos - No Mediterrâneo, a preocupação é similar, já que este "pequeno mar" em superfície abriga uma importante diversidade, estimada em 17.000 espécies.

"Estamos preocupados porque são muito vorazes. Podem representar uma pressão a mais em nossos ecossistemas que já estão bastante perturbados" pela superexploração dos recursos marinhos, a poluição e o turismo, explicou Jimenez.

Os estômagos destes peixes serão analisados para determinar quais são suas presas preferidas. Através da análise de seus otólitos, minúsculas formações sólidas nas orelhas, os pesquisadores esperam encontrar dados como suas idades e o trajeto que seguiram.

Os pescadores cipriotas estão em alerta já que alguns deles foram picados. Além da dor, esta interação pode causar alergias.

Para Antonis Petrou, um dos diretores do Enalia, as autoridades deveriam se envolver mais na luta contra este fenômeno.

- Concursos de pesca -Theo Koutsavakis administra um clube de mergulho e vive no mar desde que era criança. Embora não tema por seu negócio - explica aos turistas que o peixe-leão não ataca - é pessimista sobre sua influência na fauna marinha, que já "está sob pressão no Chipre".

Entre as iniciativas do programa europeu estão as capturas organizadas, entre elas um concurso de pesca com arpão, que buscam que o homem se torne um "pescador-predador".

Também se estuda ensinar os cozinheiros a utilizá-lo e propor a designers que criem objetos com suas espinhas únicas.

"Sabemos que hoje é quase impossível pôr fim à invasão do peixe-leão, apontou Louis Hadjioannou. "O objetivo do projeto não é erradicá-lo, mas controlá-lo".

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