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Defesa de Cosby ataca credibilidade de ex-modelo que denuncia estupro

12/04/2018 22h08

Norristown, Estados Unidos, 13 Abr 2018 (AFP) - O advogado de defesa de Bill Cosby atacou ferozmente nesta quinta-feira (12) a credibilidade da ex-modelo Janice Dickinson, que contou ao júri que o popular ator a estuprou há 36 anos em um hotel da Califórnia após dar a ela um comprimido azul, que a deixou grogue e enjoada.

Cosby, de 80 anos, pode passar o resto da vida atrás das grades se for considerado culpado por drogar e agredir sexualmente a ex-funcionária universitária Andrea Constand, hoje com 44 anos, em sua casa na Filadélfia em 2004.

A permissão do juiz para que outras cinco mulheres que acusam o ator de agressão sexual prestem depoimento em seu processo é o maior desafio para a defesa. Dickinson é a quarta acusadora a testemunhar ante o júri.

A ex-modelo contou como, em 1982, quanto estava em Bali trabalhando como modelo, o ator lhe enviou uma passagem de avião para se encontrar com ela em Lake Tahoe, na Califórnia. Ela disse ter aceito porque sonhava com uma carreira de atriz e achou que Cosby, a quem apenas conhecia, poderia ajudá-la.

Cosby a esperou no hotel com roupas novas de inverno e ambos jantaram tomando vinho. Quando Dickinson se queixou de cólicas, ele lhe deu um comprimido azul que a deixou completamente aturdida.

Ela contou que depois Cosby a estuprou e a deixou "muito, muito dolorida", "em choque e humilhada".

"Ele subiu em cima de mim e seu roupão se abriu. Lembro que sentia o cheiro de cigarros, café expresso e do seu corpo", disse Dickinson. "Pensava 'o que diabos está fazendo?' Não consenti isso. Não havia dito que sim".

"Perdi a consciência depois que ele me penetrou. Foi asqueroso", contou ao júri a ex-modelo, hoje mãe e avó de 63 anos. "Acordei no dia seguinte no meu quarto. Não sabia onde estava" e "vi sêmen entre as minhas pernas e sentia dor no ânus".

O advogado de Cosby, Tom Mesereau, famoso por conseguir a absolvição de Michael Jackson por abuso sexual de um menor de idade, afirma que as acusadoras são vigaristas mesquinhas que só querem o dinheiro do ator.

O primeiro julgamento contra Cosby, um pioneiro que derrubou as barreiras raciais na televisão e foi o primeiro afro-americano a ganhar um Emmy em 1996, foi anulado em junho porque o júri não chegou a um veredicto unânime.

As denúncias por agressão sexual mancharam o legado do ator de comédia adorado por milhões de pessoas por sua interpretação de Cliff Huxtable, um ginecologista e carinhoso pai de família na série de televisão "The Cosby Show".

- "Minha verdadeira história" -Dickinson não chamou a polícia. Disse que se sentia humilhada e envergonhada e que temia perder seus contratos com marcas como Revlon e Maybelline caso denunciasse ter sido estuprada por um ator tão famoso, casado e pai de cinco filhos.

"Eu sabia que poderia arruinar minha carreira se eu contasse e dissesse algo contra ele", afirmou.

Mas o advogado de Cosby levou nesta quinta-feira ao tribunal um livro de memórias de Dickinson publicado em 2002, uma obra do mesmo 'ghost writer' que trabalhou para O.J. Simpson, em que ela não faz nenhuma referência ao estupro. Em vez disso, disse que Cosby e a ex-modelo foram a quartos separados desse hotel em Lake Tahoe, e que em seu quarto ela tomou vinho, sedativo e foi dormir.

"Você mentiu para receber um cheque?", perguntou Mesereau na corte federal de Norristown, nos subúrbios da Filadélfia.

"Eu não minto, senhor, não me chame de mentirosa", disse Dickinson. "Hoje eu jurei sobre uma Bíblia (...) para contar minha verdadeira história".

Mesereau a acusou de enganar Sylvester Stallone, fazendo-o acreditar que estava grávida do ator na época em que os dois saíram.

"Tive relações sexuais com dois homens nesse mês. Ele não era o único pretendente", replicou Dickinson. "Disse-lhe que estava grávida".

"Ele ficou comigo durante toda a gravidez, depois o teste de DNA confirmou que ele não era o pai de minha filha".

- Desmaio -A quinta acusadora, Lise-Lotte Lublin, uma professora de Las Vegas, disse que Cosby lhe deu dois gole de bebida alcoólica em 1989, quando era uma modelo de 23 anos.

Ela relatou que em minutos começou a sentir enjoo, e que ele pediu para ela se sentasse entre suas pernas e acariciou seus cabelos. Depois disso, Lublin diz ter desmaiado.

Ela acordou na própria cama sem se lembrar do que havia acontecido. Lublin acredita agora ter sido agredida e disse que nunca mais voltou a confiar em Cosby a ponto de ficar a sós com ele.

Embora 60 mulheres tenham acusado Cosby de agressão sexual, o ator só é julgado por três crimes, contra Constand, pois a maioria dos demais já prescreveu.

A expectativa é de que Constand testemunhe nesta sexta-feira.

O primeiro julgamento de Cosby foi anulado em junho passado, porque o júri n]ao conseguiu chegar a um veredito unânime.