Ronaldo Schemidt, fotógrafo da AFP, ganhador do World Press

México, México, 12 Abr 2018 (AFP) - Um manifestante venezuelano passa correndo envolvido em chamas: durou cerca de 10 segundos, mas por trás desse instante havia uma vida inteira de experiência profissional, do agora famoso fotógrafo Ronaldo Schemidt.

Por essa imagem, símbolo de um país em chamas, Schemidt, fotógrafo de 46 anos da Agence France-Presse, ganhou nesta quinta-feira o principal prêmio do World Press Photo, o concurso mais prestigiado do fotojornalismo.

A recompensa tem um um sabor amargo para Schemidt, por ele ser também venezuelano. "Tenho sentimentos ambíguos", disse.

"Tenho amigos e familiares lá. Sei, assim como todo o mundo, o que a Venezuela está vivendo".

Como sempre no fotojornalismo, para ganhar o prêmio era preciso estar no lugar certo e na hora. Mas o prêmio não foi o mero resultado de circunstâncias fortuitas, mas a recompensa por toda uma vida dedicada à profissão.

Schemidt deixou seu país natal há 18 anos e vive atualmente na Cidade do México, onde trabalha para o serviço de fotografia da AFP.

Ele viajou para a Venezuela para cobrir quase todas as etapas chave de sua história recente, documentando o caos em que o pujante país petroleiro de sua infância se transformou.

No ano passado, cobriu durante dois meses os confrontos quase diários de manifestantes com as forças de segurança do governo de Nicolás Maduro.

- No lugar certo -Como o resto dos venezuelanos, a própria família de Schemidt padece da espiral de escassez e hiperinflação que desencadearam os protestos: quatros meses de confrontos nas ruas que deixaram 125 mortos.

Quando, no dia 3 de maio de 2017, estava no lugar certo para captar a imagem que se tornou a mais emblemática dos protestos, ele sabia onde havia parado.

Ao fim de um dia longo e intenso, ele havia decidido acompanhar um pequeno grupo de manifestantes que corria por uma rua no que já foi um tranquilo bairro residencial de Caracas.

Ao chegar no local, viu um veículo blindado dirigir-se a um grupo de jovens. Os manifestantes tinham conseguido pegar uma moto da guarda nacional, que exibiam como troféu.

No entanto, vazava gasolina da moto, que não demorou a pegar fogo e explodir.

Envolto em chamas, o estudante de 28 anos Víctor Salazar - que sobreviveu ao incidente - correu desesperado. Schemidt capturou a imagem no instante em que o manifestante passava em frente a uma parede, pintada com o grafite de uma pistola que dispara a palavra "paz".

- Preparação e adrenalina -Schemidt foi criado em Caracas, onde estudou antropologia na Universidade central da Venezuela, antes de se instalar no México em 2000 para se formar como fotógrafo em Puebla (centro) e se iniciar nos diferentes estilos de fotografia.

Ele que dizia a seus professores que só uma coisa o interessava: o fotojornalismo.

Schemidt começou a trabalhar ocasionalmente para a AFP nessa cidade em 2003, antes de ser contratado no escritório da agência de notícias na capital mexicana em 2006.

Além da crise venezuelana, ele cobriu, nos últimos anos, grandes acontecimentos na América Latina, da Copa do Mundo no Brasil em 2014 à morte de Fidel Castro dois anos depois, passando pelos devastadores terremotos de 2017 no México.

Ele diz que acontecimentos que juntam adrenalina à necessidade de uma preparação minuciosa o atraem.

"Gosto de estar no terreno e gosto dessa preparação, saber que vou estar fora fazendo um trabalho duro, tentando conseguir um bom material em condições muito difíceis", disse.

Uma boa preparação não necessariamente permite evitar os percalços. Ronaldo voltou da Venezuela com ferimentos leves na perna, provocadas por impactos de projéteis. E foi submetido a injeções contra uma reação alérgica aos gases lacrimogêneos.

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