Meninas de Chibok contam seus sonhos arruinados pelo Boko Haram

Kano, Nigéria, 13 Abr 2018 (AFP) - Saraya queria ser advogada. Quatro anos depois de ter conseguido fugir das garras do grupo extremista Boko Haram, assim como outras meninas de Chibok sequestradas em 2014, esta jovem nigeriana viu seus sonhos se evaporarem por falta de dinheiro, apesar das promessas de ajuda do governo.

As autoridades nigerianas se comprometeram a se encarregar da educação secundária e dos estudos superiores das jovens que fugiram logo após o sequestro, mas Saraya nunca pôde se matricular na faculdade de Direito.

No nordeste da Nigéria, uma região rural extremamente pobre e devastada pela insurreição extremista há quase 10 anos, somente 8% das meninas vão à escola e completam sua educação secundária, de acordo com uma pesquisa nacional de 2013.

"Nos sentimos extremamente mal e abandonadas, nosso futuro está em suspenso", reconhece à AFP por telefone Saraya Amos, de 19 anos, de Chibok.

"As chances de continuarmos nossos estudos são mínimas", acrescenta. "Desde que terminamos o liceu, no ano passado, estamos em casa sem fazer nada e o governo sequer tentou nos contactar".

Em 14 de abril de 2014, vários homens armados atacaram um internato para meninas em Chibok, no estado de Borno, e obrigaram 276 alunas a subir em caminhões.

Esse sequestro em massa se tornou o símbolo dos abusos cometidos pelo grupo extremista, que deixou 20 mil mortos e 2,6 milhões de deslocados no nordeste do país desde 2009.

Após o rapto, 57 das reféns fugiram pulando dos veículos em movimento e conseguiram voltar as suas casas, enquanto 219 ficaram nas mãos do Boko Haram.

O governo de Borno prometeu que garantiria a educação das resgatadas até que obtivessem um diploma universitário, com a condição de que recomeçassem seus três anos de liceu em outras instituições.

Dessas 57, três se transferiram aos Estados Unidos graças a um organismo de caridade cristão, e as outras 54 foram admitidas em dois institutos privados nigerianos.

- 'Abandonadas' -Segundo Yakubu Nkeki, presidente da associação de pais de Chibok, as meninas foram "abandonadas" pelo governo, "que não manteve todas as suas promessas" e parou de pagar os gastos com educação quando terminaram o ensino médio.

Além disso, "os pais são pobres, não podem se permitir enviar suas filhas à escola" por mais três anos, com todos os gastos que isso significa, como transporte e alimentação, diz amargamente.

O Ministério da Educação de Borno havia se comprometido a conceder 1,5 milhão de nairas (3.400 euros) anuais por aluna até que tivesse terminado a universidade, uma quantia que nunca foi entregue, segundo os pais.

Como resultado, 17 delas tiveram que abandonar seus estudos antes de obter o diploma do ensino secundário.

"Nossos pais tentaram vender seus produtos agrícolas e de gado para comprar provisões suficientes para nós", explica Hadiza Fali, de 20 anos, que queria ser engenheira, mas passa seus dias cultivando os terrenos da família.

Os pais de três das jovens enviadas a um instituto não conseguiram continuar pagando as 12 mil nairas (27 euros) de transporte por semana para chegar ao internato, a 700 quilômetros de suas casas.

"Uma delas se casou e as outras estão preparando seus casamentos", conta Yagana Yamane, de 18 anos, que se pergunta o que será dela se não for para a universidade.

Nos três anos posteriores ao sequestro maciço, 107 estudantes foram localizadas, resgatadas ou trocadas em negociações entre o governo e os captores.

Ao contrário de suas 57 colegas, o governo federal se encarregou das libertadas e todas puderam ir à Universidade Americana de Yola (nordeste), uma famosa instituição privada.

"Me sinto decepcionada e tratada como uma cidadã de segunda categoria", explica Hadiza Fali, que não compreende o motivo pelo qual há tanta diferença no tratamento. "Gostaria de ter continuado meus estudos".

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