Afeganistão: para o fotógrafo Shah Marai, angústia substituiu a esperança

Cabul, 30 Abr 2018 (AFP) -

Para Shah Marai, chefe de Fotografia do escritório da AFP em Cabul morto em um atentado que deixou pelo menos 25 vítimas letais nesta segunda-feira (30), a "imensa esperança" que surgiu no Afeganistão com a queda do regime talibã em 2001 deu lugar à angústia, à medida que a violência se intensificava e que as perspectivas de paz pareciam cada vez mais distantes.

Trabalhando para a AFP desde 1996, Shah Marai era uma testemunha privilegiada dos trágicos eventos que castigaram esse país em duas décadas, como contou em 2016 em um texto publicado no blog "Making of" da AFP e reproduzido abaixo:

Em Cabul, o tempo da angústia- Sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cabul - A época depois da invasão americana foi de grande esperança. Eram anos dourados. Depois do obscuro regime talibã, parecia que finalmente os afegãos caminhavam para uma vida melhor. Mas hoje, 15 anos depois, essa esperança se desvaneceu e a vida parece ser mais dura do que antes. A festa acabou e os talibãs estão na nossa porta.

Comecei a trabalhar para a AFP em Cabul, como motorista, em 1996. E então, a partir de 1998, como fotógrafo.

Os talibãs odiavam os jornalistas. Por isso, sempre fui muito discreto e sempre usava o salwar kameez, a vestimenta tradicional, quando saía à rua e tirava fotos com uma pequena câmara que escondia sob um lenço que levava enrolado na minha mão. As restrições impostas pelos talibãs tornavam extremamente difícil trabalhar. Proibiram fotografar qualquer ser vivo, fossem pessoas, ou animais. Era contra sua concepção do Islã.

Um dia estava tirando fotos de uma fila do lado de fora de uma padaria. A vida na época era dura, tinha desemprego, e os preços estavam nas alturas. Uns talibãs se aproximaram de mim.

"O que você está fazendo?", me perguntaram.

"Nada", respondi. "Estou tirando fotos do pão!".

Felizmente, isso aconteceu antes das câmeras digitais e não puderam verificar se eu dizia a verdade.

Nessa época, raramente assinava minhas fotos. Colocava apenas "str" (de "stringer"), para não chamar atenção.

A AFP não tinha um escritório, mas uma casa no mesmo bairro, Wazir Akbar Khan, onde temos agora - residencial e com pessoal diplomático. Os enviados especiais se revezavam para vir aqui, incluindo o gigante neozelandês Terence White. Regularmente íamos para a fronteira na planície de Shomali, onde a Aliança do Norte se defendia dos talibãs. Além da BBC, apenas três agências - AFP, AP e Reuters -, permaneceram na cidade.

No ano 2000, todos os estrangeiros foram perseguidos, e eu me vi sozinho para manter o escritório da AFP. Com um telefone por satélite, eu enviava informação para o escritório de Islamabad, no Paquistão.

Vi os ataques de 11 de setembro de 2001 na BBC, os aviões se jogarem nas Torres Gêmeas em Nova York, sem imaginar por um segundo as repercussões possíveis para o Afeganistão. Alguns dias mais tarde, o escritório de Islamabad me alertou: "Há rumores de que os americanos vão atacar".

Em 7 de outubro, os bombardeios começaram sobre Kandahar, perto da fronteira com o Paquistão, onde os talibãs haviam instalado sua capital.

Eu estava prestes a enviar por telefone a informação para Islamabad quando ouvi os aviões sobre Cabul. As primeiras bombas foram lançadas perto do aeroporto. Não dormi essa noite, mas não podia sair.

Na manhã seguinte, fui ao aeroporto com meu carro. Não muito longe dali, cruzei com várias dezenas de militantes talibãs vestidos de preto. Um deles se aproximou de mim. "Olha, estou de bom humor e não vou te matar. Mas saia daqui agora mesmo", me disse.

Dei meia-volta, dirigi de volta e deixei o carro no escritório. A cidade estava deserta. Voltei para o aeroporto de bicicleta, como um cara comum, com a câmera escondida sob um pano enrolado na minha mão. Nesse dia tirei apenas seis fotos, nenhuma a mais! Finalmente, enviei duas. Apenas duas.

Então, uma manhã, os talibãs tinham desaparecido, e as forças da Aliança do Norte entraram em Cabul, como libertadores. Os americanos, com seus bombardeios e suas forças especiais, tinham cumprido sua missão.

As ruas estavam cheias de gente, as pessoas saíam, reviviam. Era como se tivessem saído das sombras para a luz da vida outra vez. Vi que pilhavam a embaixada do Paquistão.

Vários colegas começaram a chegar. Imediatamente a AFP mandou um repórter e um fotógrafo de Moscou e logo éramos uma dúzia na casa de Wazir Akbar Khan. O escritório nunca estava vazio. Cabul estava em festa, se tornou o "Jornalistão".

Ajudei todo o mundo a buscar hospedagem, um carro, um produtor local, ou aconselhando sobre a melhor maneira de chegar a um lugar. Meu melhor amigo me propôs sociedade para abrir a Sultan Guesthhouse, a primeira pousada de Cabul: eu deveria tê-lo acompanhado, ele fez fortuna!

Era incrível ver todos esses estrangeiros, depois de anos de isolamento no regime talibã. Vinham de todas as partes, e as crianças corriam diante deles nas ruas. Lembro de um jovem, segurando um dólar, repetindo vez ou outra: "É o primeiro dólar que tenho na minha mão".

Tudo voltou a ser possível, mesmo as coisas mais simples, como ir ao barbeiro.

Era uma época de grande esperança. Os anos dourados. Não havia combates na cidade. As ruas estavam cheias de tropas do Reino Unido, França, Alemanha, Canadá, Itália e Turquia. Os soldados patrulhavam a cidade a pé, saudando, relaxados e sorrindo. Eu podia fotografá-los o quanto quisesse.

Você também podia viajar para onde quisesse, para Helmand - uma província ao sul, reino da papoula hoje infestado de insurgentes -, a leste, a oeste.

Em todo o lugar era seguro e então...

E então, em 2004, os talibãs voltaram. Primeiro pela província de Ghazni, no sudeste. Depois, em 2005 e 2006, começaram a se espalhar como um vírus. E os ataques começaram em Cabul, onde o alvo eram os lugares frequentados por estrangeiros. A festa tinha acabado.

Hoje os talibãs estão outra vez em toda a parte, e a maior parte do tempo estamos presos em Cabul. Os T-walls, esses blocos de concreto projetados para se proteger de carros e caminhões-bomba, proliferaram por toda cidade. As pessoas já não são amáveis com quem tem uma câmera. Chegam a ser agressivas, às vezes. As pessoas não confiam em ninguém, especialmente em alguém que trabalha para uma agência de notícias estrangeira. Perguntam se você é um espião.

Quinze anos depois da intervenção americana, os afegãos se viram sem dinheiro, sem trabalho e com os talibãs na porta de suas casas. Com a retirada do essencial das tropas ocidentais em 2014, muitos estrangeiros foram embora, e eles foram esquecidos, assim como os milhares de milhões de dólares investidos nesse país.

Lembro com nostalgia desses anos, imediatamente depois da chegada dos americanos. É claro que a cidade mudou muito desde 2001. Foram construídos novos edifícios e largas avenidas substituíram as ruas estreitas. Os sinais da guerra desapareceram: com exceção do antigo Palácio real Darulaman, você não vê ruínas na cidade. As lojas estão cheias e você encontra de tudo.

Mas já não há esperança. A vida parece ser ainda mais dura do que sob o regime talibã por conta da insegurança. Não me atrevo a levar meus filhos para dar um passeio. Tenho cinco (o sexto filho nasceu há apenas duas semanas), e me dá pena: passam o dia trancados em casa. A cada manhã, quando vou para o escritório, e a cada tarde, quando volto, penso apenas nos carros com bombas escondidas, ou nos homens-bomba que saem da multidão. Não posso correr o risco, então, não saímos.

Lembro muito bem de Sardar, meu amigo do escritório que foi assassinado junto com a mulher, uma filha e um filho quando saíam do hotel Serena. Apenas o caçula sobreviveu ao ataque.

Nunca senti tão pouca perspectiva e não vejo saída. É um tempo de muita angústia.

bur-ahe/lch/tt

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