Libertação de estuprador causa polêmica na Espanha

Barcelona, 3 Mai 2018 (AFP) -

A libertação de um estuprador em série apesar dos relatórios advertindo para o risco de reincidência provocou incredulidade nesta quinta-feira (3) na Espanha, ainda abalada pelo caso chamado "La Manada".

Cerca de 200 pessoas se concentraram em frente a sua casa no bairro de Verneda, em Barcelona, segurando cartazes com o seu rosto. "Estupradores na prisão", "Agora somos nós contra você", gritavam.

Após 23 anos atrás das grades, o agressor G.C., de 47 anos, deixou a prisão de madrugada com o rosto com um capuz.

Entre 1997 e 1998, semeou o terror em muitos bairros humildes de Barcelona ameaçando mulheres jovens com uma navalha para que fizessem sexo oral nele.

A Polícia o acusava de 40 agressões, mas a Justiça conseguiu provar somente 15 consumadas e duas tentativas.

Agora assegura estar reabilitado e lamentar a dor causada. "Os programas (de reabilitação) existentes para pessoas que cometeram o meu crime são efetivos se elas quiserem. (...) E eu consegui", afirmou aos meios de comunicação presentes em sua libertação.

Entretanto, a Promotoria ativou um protocolo de vigilância especial após receber um relatório dos serviços penitenciários do "risco moderado ou alto de reincidência".

"Tenho uma filha de 14 anos que vai para a escola aqui ao lado e não me agrada que este homem esteja por aqui", declarou Carme Navarro, sindicalista de 51 anos.

"É um perigo para mim, para a minha família, para as minhas amigas", assegurou Marina Bonache, estudante universitária de 22 anos e moradora da área.

"É um estado de indefesa total com a Justiça desse país. Se acontecer alguma coisa agora, o que temos que fazer? Resistir e nos machucarem porque se não o juiz não acredita em você?", protestava em referência à polêmica sentença do caso de "La Manada".

- Máxima sensibilidade -A libertação ocorre em pleno debate na Espanha sobre agressões sexuais devido à polêmica condenação de "La Manada". Cinco homens de entre 27 e 29 anos foram acusados de estuprar em grupo uma jovem de 18 anos durante as festas de São Firmino de Pamplona em 2016.

O tribunal os condenou a nove anos de prisão por "abuso sexual" ao invés de "agressão sexual", tipificação correspondente ao estupro que requer o uso da violência e intimidação, ao entender que a vítima não resistiu aos abusos.

Inclusive, um dos três juízes do tribunal advogou pela absolvição dos cinco jovens, qualificando a ação, gravada em vídeo pelo grupo, como "atos sexuais em um ambiente de bagunça e festa".

A sentença gerou indignação na sociedade, especialmente entre os coletivos feministas que, em 8 de março, se lançaram maciçamente às ruas da Espanha durante uma greve de mulheres para reivindicar uma igualdade real de direitos.

Representantes de todos os partidos políticos mostraram sua desconformidade com o veredicto e o governo apresentou uma reforma do código penal, enquanto centenas de mulheres se solidarizavam com a vítima nas redes sociais revelando os abusos sexuais sofridos com a hashtag #cuéntalo.

- Um problema comum -Mas no caso do "estuprador de Verneda", a advogada das vítimas não culpa o sistema judiciário, mas os serviços penitenciários, que foram incapazes de reabilitar o preso.

"As vítimas sentem inquietação, angústia, não querem reviver isso", assegurou à AFP María José Varela.

"Mas essas manifestações não nos levam a lugar nenhum", advertiu, assegurando que o estuprador já "cumpriu seu castigo".

"O que acontece agora? Quando estava na prisão parece não ter sido reabilitado. Algo está falhando", denunciou.

"Aqui, na Catalunha, tenho lidado com vítimas de estupradores múltiplos e todos saíram com o mesmo relatório de não reabilitação", afirma, destacando que no ano anterior um desses condenados reincidiu poucos meses depois.

Uma situação similar foi vivida na França, onde um homem condenado por estupro de uma menor de idade em 1996 foi detido na noite de segunda para terça-feira por ter estuprado e matado na semana anterior uma menina de 13 anos perto de Lille.

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