Europa e China lutam para salvar acordo com Irã após saída dos Estados Unidos

Paris, 9 Mai 2018 (AFP) -

As potências europeias e a China trabalhavam nesta quarta-feira para tentar salvar um acordo histórico sobre o programa nuclear iraniano, depois que o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do pacto e voltou a impor sanções contra Teerã.

Trump provocou uma onda de críticas ao anunciar na terça-feira que seu país está fora do acordo que pretende garantir o caráter não militar do programa nuclear iraniano, uma medida que ameaça derrubar anos de esforços diplomáticos e aprofundar a instabilidade no Oriente Médio.

A reação em Teerã foi de revolta. Deputados iranianos queimaram nesta quarta-feira uma bandeira americana de papel e uma cópia do acordo sobre o programa nuclear no Parlamento, aos gritos de "morte à América".

O rivais regionais do Irã, Arábia Saudita e Israel, aplaudiram o anúncio de Trump.

Sair do acordo nuclear é um "erro", advertiu o presidente francês, Emmanuel Macron.

- Salvaguardar o acordo -

Desprezando mais de uma década e meia de esforços diplomáticos entre Reino Unido, China, França, Alemanha, Irã, Rússia e governos americanos passados, Trump anunciou na terça-feira a saída de seu país do acordo nuclear.

Ele descreveu o pacto, assinado em 2015 por seu antecessor Barack Obama, como uma "vergonha" para os Estados Unidos e um acordo que não impede as ambições nucleares do Irã.

As potências europeias e a China, signatárias do acordo, pediram nesta quarta-feira a salvaguarda do texto, apesar da saída dos Estados Unidos.

"Vamos respeitar o acordo e faremos todo o possível para que o Irã se atenha a suas obrigações", declarou a chanceler alemã Angela Merkel.

O líder russo, Vladimir Putin, manifestou sua "profunda preocupação" com esta decisão, no momento em que se prepara para receber o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Os europeus também prometeram fazer o possível para proteger os interesses de suas empresas no Irã.

O governo dos Estados Unidos ameaçou adotar sanções contra as empresas estrangeiras que mantêm negócios com o Irã. Washington deu um prazo de 90 a 180 dias para o encerramento dos contratos com este país.

Apesar das promessas, o guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, disse que Teerã também abandonará o acordo nuclear se os países europeus não apresentarem garantias "reais.

"Caso não consigam obter uma garantia definitiva - e realmente duvido que consigam -, não podemos seguir assim", disse Khamenei em um discurso transmitido pela televisão.

Os ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha e Reino Unido se reunirão com representantes iranianos na segunda-feira, para analisar toda a situação, informou Jean-Yves Le Drian.

Em conversa por telefone com o colega iraniano Hassan Rohani nesta quarta-feira, o presidente francês concordaram em "seguir trabalhando juntos para a implementação do acordo nuclear".

- 'Guerra psicológica' -Para Trump, o novo pacto com o Irã deveria incluir não apenas restrições mais severas sobre seu programa nuclear, mas também sobre o programa de mísseis balísticos.

"Não permitiremos que as cidades americanas sejam ameaçadas pela destruição. E não permitiremos que um regime que canta 'morte aos Estados Unidos' tenha acesso às armas mais letais da Terra", disse Trump.

Em um discurso exibido pela televisão estatal, Rohani chamou de "guerra psicológica" a decisão de Washington de abandonar o acordo e reinstaurar as sanções econômicas contra Teerã.

O presidente iraniano indicou ainda que seu país poderia retomar o enriquecimento de urânio "sem limite" em resposta ao anúncio de Trump.

"Vamos aguardar várias semanas antes de aplicar esta decisão. Vamos conversar com nossos amigos e aliados, os outros membros do acordo nuclear", disse.

Trump advertiu: "Se o regime continuar com suas aspirações nucleares, terá mais problemas".

- Revés para a Europa -A decisão de Trump é uma dura derrota diplomática para a Europa, cujos líderes pediram ao presidente americano para manter seu país no acordo.

O conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, afirmou, no entanto, que a cooperação com a Europa sobre o Irã vai continuar.

Washington "trabalhará com os europeus e outros países, não apenas sobre a questão nuclear, mas também sobre o desenvolvimento de mísseis balísticos do Irã, seu apoio contínuo ao terrorismo e suas atividades militares que colocam em perigo nossos amigos", disse Bolton ao canal Fox News.

Com a decisão de sair do acordo com o Irã, Trump cumpriu uma promessa de campanha. Mas ainda não é possível saber qual será o impacto a longo prazo para a política externa dos Estados Unidos e Oriente Médio.

Alguns analistas advertem que a medida complicará os esforços americanos para chegar a um acordo com o líder norte-coreano Kim Jong Un sobre seu programa de armas, ainda mais avançado que o iraniano.

O ex-diretor da CIA John Brennan afirmou que a decisão de Trump "dá à Coreia do Norte mais motivos para permanecer com suas armas nucleares".

O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, que estimulou o tratado multilateral, saiu de seu silêncio e chamou a decisão de Trump de "equivocada".

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