Rússia pode se beneficiar da saída dos EUA do acordo nuclear com Irã

Moscou, 11 Mai 2018 (AFP) - A Rússia criticou a retirada dos Estados Unidos do acordo sobre o programa nuclear iraniano, mas está menos exposta que os europeus às consequências econômicas das sanções americanas, que poderiam acabar sendo vantajosas para suas empresas.

Enquanto os europeus se esforçam para preservar os laços econômicos criados com o Irã desde a assinatura do acordo em 2015, as empresas russas se encontram em posição de vantagem, apontam analistas.

"O acordo e o levantamento das sanções marcaram a volta das empresas europeias aos Irã e uma forte concorrência. Atualmente, dificilmente poderão continuar, e isso dá mais espaço à Rússia", afirma o cientista político independente Vladimir Sotnikov. "A Rússia hoje tem, mais do que nunca, carta branca" para agir.

As relações entre Rússia e Irã, outrora antagonistas, melhoraram muito com o fim da Guerra Fria. Quando os demais países isolaram Teerã, Moscou aceitou retomar, em meados da década de 1990, o contrato de construção da central nuclear de Bushehr (sul do Irã), abandonado pela Alemanha.

Mesmo antes do acordo de 2015 os dois países tentavam reforçar seus laços comerciais, apesar das sanções em vigor.

"As empresas europeias estão mais expostas ao mercado americano, devem se conformar para não ter problemas. Os russos estão muito menos, têm menos a perder", afirma Igor Delanoë, do Observatório Franco-Russo.

"Mesmo quando o Irã era alvo de sanções, os russos continuaram trabalhando ali, sem complexos. Estão acostumados a evoluir com as limitações jurídicas e econômicas. Automaticamente, os Estados Unidos obrigam o Irã a olhar mais para Rússia e China", afirma.

Essa situação poderia revitalizar os intercâmbios econômicos entre a Rússia e o Irã, que perderam o impulso nos últimos anos, apesar da implicação da gigante russa Rosatom no setor nuclear civil iraniano e das gigantes de energéticas Lukoil e Rosneft na exploração dos recursos petroleiros do país.

Segundo o especialista, o comércio bilateral foi de 1,7 bilhão de dólares em 2017, 20% a menos que no ano anterior, e muito menor que os 3 bilhões do fim dos anos 2000.

- Moscou 'não tem medo' -O vice-ministro russo de Relações Exteriores, Serguei Riabkov, garantiu na quinta-feira em Teerã, segundo a agência Ria Novosti, que os dois países esperavam prosseguir com uma "cooperação econômica completa": "Não temos medo das sanções".

Essa ideia também ressoa na China, que financia o Irã em projetos de bilhões de dólares nos setores de hidrocarbonetos, infraestruturas e eletricidade. Pequim garante querer manter "relações econômicas e comerciais normais".

"A Rússia quer vender aço, infraestruturas de transportes e outros bens industrias ao Irã. Quanto menor for a concorrência dos Estados Unidos e da União Europeia, melhor", avalia Charles Robertson, analista da Renaissance Capital.

Igor Delanoë também cita as necessidades do Irã em matéria de infraestrutura energética, de telecomunicações e de eletricidade.

"Nesses setores, a Rússia tem uma carta a jogar", disse, indicando que isso poderia fazer avançar "certa tendência de fazer negócios na moeda nacional entre a Rússia" e os países do Oriente Médio, evitando o dólar, cuja utilização permite uma exposição à Justiça americana.

Outro efeito positivo para a economia russa: a alta dos preços do petróleo, que chegaram ao seu nível máximo desde 2014 após a saída dos americanos do acordo.

Para os analistas do banco russo Alfa, as atuais tensões devem manter o preço do barril a um nível alto, "um grande alívio para o mercado russo".

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