EUA inauguram embaixada em Jerusalém; violência explode em Gaza

Jerusalém, 14 Mai 2018 (AFP) -

A inauguração da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, concretizando uma das promessas mais polêmicas do presidente Donald Trump, traduziu-se em um banho de sangue na Faixa de Gaza, nesta segunda-feira (14), onde 52 palestinos foram mortos por tiros israelenses.

Por causa da violência, este dia de festa para israelenses e americanos é o mais letal do conflito de Israel com os palestinos desde a guerra de 2014 na Faixa de Gaza.

Enquanto as autoridades americanas e israelenses celebravam um momento "histórico" e a força de sua aliança em uma enorme tenda branca no terreno da nova embaixada, dezenas de milhares de palestinos protestavam a algumas dezenas de quilômetros de distância, na Faixa de Gaza.

Os mais determinados enfrentaram, colocando suas vidas em risco, os tiros dos soldados israelenses, lançando pedras e tentando forçar a barreira de segurança fortemente vigiada.

Israel havia avisado que usaria "todos os meios" para proteger seus soldados e a cerca, evitando assim o cenário de pesadelo de uma incursão em Israel de palestinos que provavelmente atacariam as populações civis vizinhas.

Segundo o último balanço provisório do Ministério da Saúde de Gaza, 52 palestinos foram mortos, e centenas ficaram feridos.

O embaixador palestino na ONU, Riyad Mansour, informou que, entre as vítimas mortais, oito têm menos de 16 anos.

- 'Crimes de guerra' -

O governo palestino estabelecido na Cisjordânia ocupada acusou Israel de cometer um "horrível massacre" em Gaza.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, denunciou um massacre e rejeitou qualquer mediação de paz americana.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse estar "particularmente preocupado", enquanto a União Europeia apelou a todas as partes que demonstrem "a máxima contenção".

As ONGs Anistia Internacional e Human Rights Watch (HRW) denunciaram um uso injustificado de munição real, com a primeira organização denunciando uma "violação abjeta" dos direitos humanos e "crimes de guerra".

Dentro da embaixada americana, nada teria permitido discernir o que estava acontecendo ao mesmo tempo em Gaza. Apenas o conselheiro e genro de Trump, Jared Kushner, presente com sua esposa, Ivanka - a filha do presidente -, entre centenas de convidados escolhidos a dedo, pareceu fazer uma referência indireta aos eventos.

"Aqueles que provocam a violência são parte do problema, não a solução", disse ele.

No momento em que o balanço aumentava de hora em hora, Trump saudava a transferência para Jerusalém da embaixada como "um grande dia para Israel".

"Parabéns, esperávamos por isso há muito tempo", declarou o republicano em uma mensagem de vídeo aos participantes.

Como o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, depois dele, Trump justificou sua decisão como o reconhecimento de uma realidade histórica. Ele afirmou que os Estados Unidos continuam "totalmente comprometidos com a busca de uma paz duradoura" entre israelenses e palestinos.

A inauguração é, no entanto, amplamente vista como um ato de desafio à comunidade internacional em um momento de grande preocupação com a estabilidade regional.

Além de se oporem à transferência da embaixada, os palestinos também protestam contra o bloqueio de Gaza e a ocupação de seus territórios.

O Exército israelense negou a natureza pacífica da mobilização, chamando-a de "operação terrorista" liderada pelo Hamas, o movimento islâmico que governa o enclave palestino e com o qual travou três guerras em dez anos.

Aviões de guerra israelenses bombardearam várias posições do Hamas durante o dia.

O Exército havia declarado a periferia de Gaza de zona militar fechada. E quase dobrou suas forças de combate em torno do enclave e na Cisjordânia, um território palestino ocupado por Israel, onde também estavam programados protestos.

Os arredores da embaixada americana, colocada sob a vigilância de centenas de policiais, também foram isolados.

Materializando um compromisso de campanha de Trump, essa transferência da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém constitui uma ruptura com décadas de diplomacia americana e de consenso internacional. O status de Jerusalém é uma das questões mais difíceis do insolúvel conflito entre israelenses e palestinos.

A decisão americana é comemorada pelos israelenses, que veem isso como um reconhecimento de uma realidade de 3.000 anos para o povo judeu. Coincide com o 70º aniversário da criação do Estado de Israel.

Mas a iniciativa unilateral americana irrita os palestinos, para quem representa o auge do preconceito escandalosamente pró-Israel de Trump. Eles interpretam isso como a negação de suas reivindicações sobre Jerusalém.

Em Gaza, Bilal Fasayfes, de 31 anos, pegou com sua esposa e dois filhos um dos ônibus fretados para Khan Yunis (sul) para transportar os manifestantes até a fronteira.

"Não nos importamos se metade das pessoas morrerem, continuaremos a ir para que a outra metade viva com dignidade", afirmou ele.

- A 'Nakba' terça-feira -Israel tomou Jerusalém Oriental em 1967 e a anexou. Toda Jerusalém é sua capital "eterna" e "indivisível", segundo afirma. Os palestinos querem fazer de Jerusalém Oriental a capital do Estado a que aspiram.

A sensibilidade do assunto é exacerbada pela religião: Jerusalém é sagrada para muçulmanos, judeus e cristãos.

A decisão de Trump também ignora as objeções das capitais árabes. A Liga Árabe realizará uma reunião de emergência na quarta-feira, segundo um funcionário da organização.

Para a comunidade internacional, Jerusalém Oriental continua sendo um território ocupado e as embaixadas não devem se estabelecer na cidade até que o status seja estabelecido por meio de negociações entre as duas partes.

A inauguração da embaixada, temporariamente instalada no prédio do consulado americano, enquanto aguarda a construção de uma nova representação, ocorre em um período eminentemente sensível.

Os palestinos veem como uma "provocação" a data escolhida, 24 horas antes da comemoração da "Nakba", a "catástrofe" que constituiu a criação de Israel para centenas de milhares deles que foram expulsos, ou fugiram de suas casas em 1948.

Desde 30 de março, Gaza tem sido palco de uma "Marcha do retorno", na qual milhares de palestinos se reúnem ao longo da fronteira. Desde então, 106 palestinos foram mortos pelo Exército israelense.

Em face das acusações de uso excessivo de força, Israel alega utilizar munição real apenas como último recurso.

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