Moscou vive sufocada por seu próprio lixo

Moscou, 15 Mai 2018 (AFP) -

O mau cheiro e as emissões tóxicas do lixo que se acumula nos lixões incomodam os moradores dos subúrbios de Moscou, enquanto a incineração está longe de satisfazer todo mundo.

A Rússia produz quase 70 milhões de toneladas de resíduos por ano, segundo as estimativas da organização ambientalista Greenpeace.

A coleta seletiva só existe em uma centena de cidades russas, e a maioria do lixo se acumula há décadas em lixões cada vez mais poluentes.

"A Rússia parece realizar a previsão [do físico] Niels Bohr de que a humanidade morrerá asfixiada em seu próprio lixo", ironizou um encarregado do Greenpeace-Rússia, Alexei Kiseliov.

Segundo o Greenpeace, nos dez últimos anos, o volume de lixo da Rússia aumentou 30%. Só 2% desse lixo são incinerados e 7%, reciclados, enquanto o resto vai se acumulando nos lixões.

Nos arredores de Moscou foram fechados 24 lixões nos últimos cinco anos por problemas de insalubridade, enquanto outros 15 continuam recebendo novas massas de resíduos contaminantes não classificados.

"A maioria foi criada há 50 anos, sem nenhuma tecnologia de tratamento do gás nem das águas usadas" que soltam, admitiu o ministério local de Ecologia.

- Manifestações -O problema entrou no debate público há um ano, quando os habitantes de Balashikha, uma cidade 6 km ao oeste de Moscou, asfixiados pelo odor de um lixão vizinho, pediram ao presidente Vladimir Putin que o fechasse durante uma sessão de perguntas e respostas na televisão.

Desde então, as expressões de descontentamento não pararam de crescer, às vezes com uma virulência incomum em um país em que qualquer tipo de protesto esbarra com a firmeza do poder.

No fim de março, cerca de 50 crianças tiveram que receber atendimento médico em Volokolams, ao noroeste de Moscou, após terem sido intoxicadas por um gás procedente de um lixão próximo. Milhares de habitantes se manifestaram então, algo raro na Rússia, para pedir seu fechamento.

Depois disso, a Rússia pediu a Holanda um sistema para neutralizar os serviços tóxicos, devido à falta de tecnologia russa nesse campo.

Segundo os especialistas, quase 11 milhões de toneladas de lixo se acumulam por ano nos arredores de Moscou, 16% dos resíduos de todo o país.

"O mais grave é que ninguém lida com o problema até que há uma emissão de gás, um vazamento de água contaminada ou um incêndio em um lixão", lamentou Kiseliov.

Diante desta catástrofe ecológica, o governo russo prometeu construir cinco incineradoras de resíduos, quatro na região de Moscou e uma em Kazan, nas marges do Volga.

As suas primeiras usinas, com capacidade para incinerar 700.000 toneladas de resíduos por ano e produzir, cada una, 70 megawatts de eletricidade, deveriam estar concluídas em 2021 em Voskresensk, no sudeste de Moscou, e em Naro-Fominsk, no nordeste.

- Incinerar ou reciclar? -As obras deveriam começar nas próximas semanas, mas a população local se manifestou contra, temendo um impacto negativo no meio ambiente.

"Queremos fábricas de reciclagem e não incineradoras", gritou uma moradora de Naro-Fomisnk, Marina Melnikova.

Como outros habitantes de sua cidade, que reuniram 4.000 assinaturas contra o projeto, enviadas ao presidente Putin, Marina confessa que teme a contaminação por dioxinas cancerígenas que poderiam ser liberadas pelos resíduos da fábrica.

"É preciso resolver o problema do lixo. Mas por que começar pelo último elo da cadeia? Onde estão a reciclagem e a separação de lixo?", se perguntava Igor Vavilov, militante comunista.

Mas Andrei Chipelov, diretor do projeto de construção de incineradoras, assegurou que se trata "das tecnologias mais sofisticadas", desenvolvidas pelo grupo suíço-japonês Hiatchi Zosen Inova, que já construiu 500 incineradoras em vários países, ou seja, um terço de todas as fábricas deste tipo no mundo.

"Essas fábricas não são nem um pouco perigosas. Nem as dioxinas nem outros elementos perigosos sairão da fábrica", prometeu Chipelov. "As altas temperaturas permitirão destruir as dioxinas mais perigosas no reator", afirmou.

Mas os ambientalistas estão convencidos de que essa não é a solução. "Para que criar uma nova fonte de poluição, quando podemos resolver o problema com fábricas de tratamento?", apontou Kiseliov.

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