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Igreja chilena vive momento crucial por casos de abusos sexuais

23/05/2018 16h55

Santiago, 23 Mai 2018 (AFP) - Um grupo de nove vítimas do padre pedófilo chileno Fernando Karadima se reunirá no começo de junho no Vaticano com o papa Francisco, que ajusta uma profunda reestruturação da Igreja do país, envolvida em uma enorme crise após a série de escândalos de abusos sexuais.

Francisco está com as atenções voltadas para o clero do Chile. Após se reunir com as vítimas diretas de Karadima e chamar a Roma todos os bispos chilenos, ele agora se reunirá com sete sacerdotes e dois laicos.

"A maioria de nós fomos vítimas do sistema abusivo que era praticado quanto participávamos da paróquia do Sagrado Coração da Providência", chamada El Bosque, liderada por Karadima por várias décadas, disseram em uma declaração pública os que se reuniram rapidamente com o papa.

Da igreja de El Bosque, Karadima exercia grande influência sobre a alta sociedade chilena e o clero, onde foi destacado como formador de diversos bispos e sacerdotes.

Outros membros do grupo, que viajará a Roma entre 1 e 3 de julho, colaboraram nos processos de acompanhamento e proximidade com os três denunciantes de Karadima: James Hamilton, Juan Carlos Cruz e José Andrés Murillo, a quem Francisco já recebeu em Roma no começo de sua rodada de entrevistas.

"Os nove esperamos que nossa experiência possa servir também para dar voz a muitos outros que sofreram abusos ou acompanharam pessoas abusadas", acrescenta a declaração pública, divulgada um dia após a Igreja católica chilena informou a suspensão dos 14 sacerdotes da cidade de Rancagua (centro) por cometer supostos delitos sexuais.

- Reestruturação completa -O convite para esse novo grupo de "vítimas de abusos de poder, de consciência e sexuais" por parte de Karadima, de acordo com o Vaticano, tomou de surpresa o clero chileno, que continua atento aos passos do Santo Padre, que antecipou que tomará medidas de "curto, médio e longo prazo".

"Nosso desejo é ir ao papa e poder mostrá-lo, para que possamos evitar a existência de mais vítimas de abusos, colaborar para que as vítimas já não existam", disse o sacerdote Alejandro Vial, um dos que viajará a Roma, em coletiva de imprensa nesta quarta-feira.

A Santa Sede abriu uma investigação profunda após denúncias contra o bispo Juan Barros, acusado de acobertar crimes de Karadima, suspenso depois de ter sido declaro culpado em 2011 de abusos sexuais de menores de idade nos anos 1980 e 1990.

Desde então, lançou atenção a toda a Igreja católica chilena, onde teria existido uma estrutura de poder que facilitou a sucessão de abusos.

"É um tema de estrutura do poder que permitiu todos esses abusos. O papa que havia um problema na Igreja chilena, uma crise", explicou Eugenio de la Fuente, outro dos sacerdotes que serão recebidos pelo papa.

Com essa reunião o Vaticano conclui a primeira fase de encontros com vítimas de um "sistema abusivo instaurado há várias décadas" na igreja de El Bosque.

- Por que agora? -Embora os abusos de Karadima tenham acontecido há quase duas décadas e ele já tenha sido condenado pelo Vaticano, seu caso desencadeou essa crise na Igreja.

Barros - nomeado ao cargo pelo próprio Francisco após denúncias de abusos de Karadima - foi acusado de acobertá-lo e isso marcou a visita do pontífice ao Chile em janeiro. Barros participou de todos os atos públicos, e o próprio Francisco defendeu-o publicamente, apontando que não havia "nenhuma prova contra ele".

Já de volta a Roma, o papa enviou ao Chile o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, para investigar diretamente essas denúncias.

Após ler seu relato, Francisco convocou todos os bispos a Roma e reconheceu ter "incorrido em graves equívocos de avaliação e percepção da situação, especialmente pela falta de informação verossímil e equilibrada".

"As circunstâncias históricas nos trouxeram a essa momento e nos surpreende. Em 20 anos, não imaginei nunca que iria estar com vocês dando esta entrevista", disse o sacerdote Francisco Javier Astaburuaga, que por duas décadas acompanhou as vítimas de Karadima.

"Hoje o papa tem vontade clara de fazer um processo de transformação e mudanças para o bem da igreja e do santo povo de Deus", acrescentou o sacerdote, que também viajará a Roma.

Após serem recebidos na semana passada pelo papa no Vaticano, os 34 bispos chilenos puseram seus cargos à disposição de Francisco, mas quando chegaram ao Chile esclareceram que mantiveram suas funções.