Prostituição ocasional pela Internet vive auge em Hong Kong

Hong Kong, 30 Mai 2018 (AFP) - Para as "part-time girlfriends" ("namoradas em tempo parcial", em tradução livre), as redes sociais são uma maneira fácil de se conectar com clientes em busca de sexo, mas essa vantagem tem o inconveniente de tentar meninas cada vez mais jovens.

Em uma cidade cujo custo de vida é exorbitante, a atividade de acompanhante atrai mulheres jovens que precisam de dinheiro e que, além disso, estudam ou trabalham.

Com uma eficácia desconcertante, uma hashtag permite, em redes como Instagram, que essas "part-time girlfriends" e seus clientes estabeleçam relações que imediatamente seguem mensagens privadas para concretizar seus encontros.

Questionada pela AFP, a Polícia disse ter atuado contra alguns sites. Em Hong Kong, a prostituição não é ilegal, mas cooptar clientes sim.

O Instagram afirmou ter deixado algumas hashtags com esse cunho inoperantes, mas outras tomaram o lugar, acrescentando às vezes apenas um caractere em chinês para fugir da censura.

De acordo com ONGs especializadas, as razões que levam muitas jovens a essa forma moderna de prostituição são variadas.

Kiki, estudante de 19 anos, que aceitou dar seu depoimento sob seu pseudônimo, diz que se prostituiu desde os 17.

"Brigava muito com a minha irmã e não estava feliz. Procurava por alguém que me escutasse", conta à AFP. "Nas primeiras vezes isso me fez bem, então continuei buscando clientes para acompanhar", explica.

"A minha família não era muito rica. Eu ganhava dinheiro e economizava", assinala, explicando que faturava 300 dólares (de Hong Kong, equivalentes a 32 euros) por um jantar ou carícias, e até 1.000 por manter relações sexuais.

Mas, após deixar essa atividade ao encontrar um parceiro, explica que lamenta esse passado. Por isso, incentiva que as mulheres que quiserem se lançar à prostituição, inclusive ocasional, pensem duas vezes.

Segundo Bowie Lam, da associação "Teen's Key", que ajuda trabalhadoras do sexo menores de 25 anos em Hong Kong, a Internet pode dar uma falsa impressão de segurança.

Inclusive, para ela, as redes sociais são responsáveis pelas "part-time girlfriends" serem cada vez mais jovens.

"Acreditam que controlam as coisas, acham que podem filtrar seus clientes, discutir com eles, mas a Internet só turva as fronteiras", diz.

Essas meninas não se consideram trabalhadoras sexuais por não atuarem em quartos sórdidos, bares, ou clubes do "bairro vermelho", continua.

- Uma sombra em sua vida -Em uma sociedade particularmente conservadora, é responsabilidade do governo adotar uma estratégia de longo prazo para fazer com que o tema seja tratado em casa ou nas escolas, posto que o sexo é tabu, considera Lam.

Sua associação propõe diversos tipos de ajuda às trabalhadoras do sexo, seja sobre análises médicas, conselhos de orientação profissional, ou como gerir um orçamento.

Mas em uma cidade tão cara como a ex-colônia britânica, a prostituição pode ser para algumas jovens uma solução tentadora.

Nicole, de 24 anos, começou a lucrar com seu corpo aos 18 anos para pagar seus estudos, contactando clientes pela Internet.

Atualmente tem um trabalho, mas continua se prostituindo para pagar seus empréstimos de estudante. Para ela, a prostituição é uma sombra em sua vida.

"Não me acho pura, me sinto suja. A todos que quisessem fazer, tentaria dissuadir", diz.

Mas nega que a julguem.

"Nenhuma menina exerce esse trabalho porque gosta", afirma. "Fazem porque precisam, ou têm problemas que não conseguem resolver", lança.

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