'Passeadores de gente' faturam com a solidão urbana em Los Angeles

Los Angeles, 31 Mai 2018 (AFP) - Por 30 dólares a hora, o serviço de caminhadas de Chuck McCarthy oferece ar fresco, exercícios e alguém com quem falar e esquecer por um tempo a vida conturbada e às vezes solitária de Los Angeles.

McCarthy inicialmente pensou em ser "um passeador de cães", um trabalho muito popular nas grandes cidades americanas, como Nova York e Los Angeles, onde os moradores viajam muito e contratam pessoas para cuidar de seus animais de estimação durante sua ausência.

"Também vi muitos anúncios de 'personal trainer', assim disse à minha namorada: 'Talvez vire um passeador de gente'", conta, durante uma caminhada pelas colinas de Hollywood, com vista para a cidade de Los Angeles.

Era uma brincadeira, mas logo McCarthy começou a pensar mais no assunto, ao perceber uma necessidade de socialização na gigantesca metrópole californiana de dez milhões de habitantes.

O homem de barba farta começou a trabalhar como 'People Walker' (passeador de gente) há dois anos, mas a demanda foi tanta que agora há outros 35 como ele em sua equipe e um site na internet possibilita às pessoas escolher os percursos e quem vai acompanhá-las.

O isolamento social tem sido relacionado com diversas formas de depressão, doenças cardíacas, diabetes e câncer, e pode encurtar a vida tanto quanto o tabagismo, segundo as pesquisas mais recentes.

Eric Klinenberg, professor de sociologia da Universidade de Nova York, identificou a principal causa desta solidão urbana em coluna recente no New York Times: a crescente cultura global do individualismo na sociedade contemporânea.

- Conversa ou confissão? -A economia dos empregados independentes (a "economia gig", em inglês) originou uma geração de trabalhadores sem rotina, que não vão ao escritório.

McCarthy diz que muitos de seus clientes são casados, têm filhos, amigos, mas seus horários não coincidem com os de seus entes queridos. É por seu aspecto prático que recorrem ao 'The People Walker'.

Para outros, as telas e as redes sociais substituíram as relações humanas, como uma espécie de sucessor de pior qualidade.

Ao invés de "gritar no vácuo do Twitter ou do Facebook", os clientes de McCarthy têm relações com pessoas reais, que não vão julgá-los ou falar mal deles.

"É muito similar a um a um confessionário, um bar, um terapeuta ou um cabeleireiro", exemplifica McCarthy.

Aspirante a ator, ele se recusa com certa faceirice a revelar a idade - "Digamos que estou na faixa dos trinta" -, mas seu negócio florescente o afastou dos castings ultimamente: está prestes a lançar um aplicativo para smartphones e tem planos para estender seus serviços a toda a Califórnia... E para o mundo.

Durante os dois últimos anos, caminha com clientes de todos os perfis quatro ou cinco vezes por semana, geralmente durante uma hora. McCarthy se descreve como alguém que sabe escutar.

"É mais uma conversa do que uma confissão", observa, antes de emendar: "Não diria que escuto os segredos mais obscuros de ninguém e tampouco as pessoas caem em prantos durante nossas caminhadas", brinca.

Originária do Wisconsin, no norte dos Estados Unidos, Anie Dee está na casa dos 20 anos e mora em Los Angeles há sete anos. Ela dirige um serviço de motoristas quando não trabalha na bilheteria de um teatro. Sentada durante todo o dia, decidiu no ano passado que queria fazer mais exercícios.

"Tenho problemas de saúde e por isso caminhar por muito tempo é muito difícil para mim. Ter alguém comigo me ajuda a caminhar mais do que pensava", diz.

Dee argumenta que seus passeios com McCarthy tiveram um impacto positivo em seu estado de ânimo.

"Quando você faz trabalho de escritório e o faz por conta própria, realmente não se beneficia do aspecto social do trabalho", explica a jovem. "Assim, quando sai para uma longa caminhada, é tipo, 'Me sinto renovada, é realmente bom", concluiu.

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