Nicarágua, mergulhada na violência, enterra seus mortos

Manágua, 1 Jun 2018 (AFP) - A Nicarágua, sacudida por violentos choques nos protestos contra o governo que já deixaram mais de 100 mortos, enterrou nesta sexta-feira 16 pessoas assassinadas nas últimas 48 horas.

Uma das vítimas, Orlando Córdoba, um estudante de 14 anos, foi atingido por uma bala na Universidade Centro-Americana (UCA) quando participava em uma marcha de solidariedade pelos mortos nos protestos contra o governo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou nesta sexta-feira a violência na Nicarágua e "em particular o assassinato de vários manifestantes" no protesto de quarta-feira.

Guterres pediu ao governo de Ortega "que garanta a proteção e a liberdade de expressão dos manifestantes pacíficos" e elogiou a criação de um painel de especialistas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para investigar a violência.

Também pediu ao governo nicaraguense que autorize o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos visitar o país.

A OEA e o governo de Daniel Ortega acertaram nesta sexta um calendário para iniciar uma reforma eleitoral no país. A secretaria-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), liderada por Luis Almagro, anunciou em um comunicado que a missão de cooperação técnica para o fortalecimento institucional na Nicarágua realizará no domingo, em Manágua, sua primeira reunião com representantes do governo para definir um plano operacional de atividades.

O cronograma para a reforma eleitoral acordado prevê que de julho a outubro um grupo de especialistas em direito eleitoral viaje ao país para se reunir com autoridades, partidos políticos e integrantes da sociedade civil. A proposta de reforma eleitoral deverá acontecer entre novembro e dezembro, com a entrega do documento final previsto para janeiro de 2019.

O calendário detalhado também leva em conta a análise, o planejamento e a criação de aplicativos para a logística eleitoral e oficinas de capacitação e testes-piloto. Os produtos desenvolvidos deverão ser entregues em dezembro.

Pelas negociações com o governo, Almagro tem sido questionado em Washington por nicaraguenses opositores, que acusam o chefe da OEA de não ser suficientemente crítico com Ortega.

Os confrontos são os mais violentos da capital e elevam a 100 o número de mortos desde o começo dos protestos em 18 de abril.

Durante os incidentes de quarta foram queimadas instalações da emissora do governo Radio Ya e uma cooperativa de crédito rural. A fachada do estádio nacional de beisebol foi destruída.

Também foram atacados o canal opositor 100% Noticias e os estúdios de transmissão da também opositora radio Darío, em León, segundo seus proprietários.

Em comunicado, o governo afirmou que esses atos obedecem a grupos de oposição com "agendas políticas específicas" que buscam "aterrorizar" a população no que chamou de "conspiração".

A Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN) anunciou que não retomará o diálogo em busca de uma saída para crise no país enquanto "o povo continuar sendo reprimido e assassinado".

O enterro das últimas 16 vítimas foi marcado por manifestações de muita dor, o que a Aliança Cívica, que agrupa opositores, classificou como o pior massacre desde o início da onda de protestos.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), por sua vez, pediu ao governo da Nicarágua proteção para o bispo auxiliar de Manágua, Silvio José Báez, um dos mais críticos de Daniel Ortega e membro da comissão de mediação no diálogo entre governo e oposição.

Luis Almagro também pediu na quinta-feira ao governo Ortega que pare com a repressão a seus opositores.

"Condenamos os assassinatos cometidos ontem pelas forças repressivas e pelos grupos armados e nos solidarizamos com os familiares das vítimas. Pedimos ao Estado que detenha a violência desses fatores repressivos", disse Almagro em um vídeo publicado no site da Organização dos Estados Americanos (OEA).

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