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R$ 150 por um jantar: redes sociais abrem portas da prostituição para garotas de Hong Kong

Anthony Wallace/AFP
24.abril.2018 - Nicole, 24 anos, usa o aplicativo de mensagens WeChat em Hong Kong Imagem: Anthony Wallace/AFP

Hong Kong

02/06/2018 04h00

Para as "part-time  girlfriends" ("namoradas em tempo parcial", em tradução livre), as redes sociais são uma maneira fácil de encontrar clientes em busca de sexo. Por outro lado, as ferramentas representam tentação para garotas cada vez mais jovens.

Em uma cidade onde o custo de vida é exorbitante, a atividade de acompanhante atrai meninas que precisam de dinheiro e que, além disso, estudam ou trabalham.

Com uma eficácia desconcertante, uma hashtag permite, em redes como Instagram, que essas "part-time  girlfriends" e seus clientes estabeleçam relações de maneira rápida.

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A polícia local disse ter atuado contra alguns sites. Em Hong Kong, a prostituição não é ilegal, mas cooptar clientes sim.

O Instagram afirmou ter derrubado algumas dessas hashtags, mas outras surgem rapidamente, acrescentando às vezes apenas um caractere em chinês para fugir da censura.

De acordo com ONGs especializadas, as razões que levam muitas jovens a essa forma moderna de prostituição são variadas.

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Kiki, estudante de 19 anos em Hong Kong Imagem: Anthony Wallace/AFP

Kiki, estudante de 19 anos, que aceitou dar seu depoimento sob seu pseudônimo, diz que se prostitui desde os 17.

"Brigava muito com a minha irmã e não estava feliz. Procurava por alguém que me escutasse", conta à AFP. "Nas primeiras vezes isso me fez bem, então continuei buscando clientes para acompanhar", explica.

"A minha família não era muito rica. Eu ganhava dinheiro e economizava", assinala, explicando que faturava 300 dólares de Hong Kong (R$ 150) por um jantar ou carícias, e até 1.000 (R$ 475) por manter relações sexuais.

Mas, após deixar essa atividade ao encontrar um parceiro, explica que lamenta esse passado. Por isso, incentiva que as mulheres que quiserem se lançar à prostituição, inclusive ocasional, pensem duas vezes.

Segundo Bowie Lam, da associação "Teen's  Key", que ajuda trabalhadoras do sexo menores de 25 anos em Hong Kong, a Internet pode dar uma falsa impressão de segurança.

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Bowie Lam, da ONG Teen's Key, que oferece apoio para trabalhadoras do sexo com menos de 25 anos Imagem: Anthony Wallace/AFP

Inclusive, para ela, as redes sociais são responsáveis pelas "part-time girlfriends" serem cada vez mais jovens.

"Acreditam que controlam as coisas, acham que podem filtrar seus clientes, discutir com eles, mas a Internet só turva as fronteiras", diz.

Essas meninas não se consideram trabalhadoras sexuais por não atuarem em quartos sórdidos, bares, ou clubes do "bairro vermelho", continua.

Uma sombra em sua vida

Em uma sociedade particularmente conservadora, é responsabilidade do governo adotar uma estratégia de longo prazo para fazer com que o tema seja tratado em casa ou nas escolas, posto que o sexo é tabu, considera Lam.

Sua associação propõe diversos tipos de ajuda às trabalhadoras do sexo, seja em relação a análises médicas, conselhos de orientação profissional, ou como gerir um orçamento.

Mas em uma cidade tão cara como a ex-colônia britânica, a prostituição pode ser para algumas jovens uma solução tentadora.

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Jovem de 24 anos trabalha em um escritório durante o dia e depois como prostituta para pagar suas dívidas da faculdade Imagem: Anthony Wallace/AFP

Nicole, de 24 anos, começou a lucrar com seu corpo aos 18 anos para pagar seus estudos, contatando clientes pela Internet.

Atualmente tem um trabalho, mas continua se prostituindo para pagar seus empréstimos de estudante. Para ela, a prostituição é uma sombra em sua vida.

"Não me acho pura, me sinto suja. A todos que quisessem fazer, tentaria dissuadir", diz.

Mas nega que a julguem.

"Nenhuma menina exerce esse trabalho porque gosta", afirma. "Fazem porque precisam, ou têm problemas que não conseguem resolver", lança.