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Para crianças imigrantes, separação dos pais é novo trauma, diz psiquiatra

20/06/2018 16h30

Washington, 20 Jun 2018 (AFP) - As mais de 2.300 crianças separadas de seus pais que entraram ilegalmente nos Estados Unidos estão vulneráveis psicologicamente depois da longa viagem que empreenderam, sustenta Judith Cohen, professora de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Drexel.

Duas condições podem evitar que fiquem traumatizados pelo resto da vida: receber acompanhamento de longo prazo, e uma reunificação rápida com seus pais, assinalou à AFP a psiquiatra, integrante da National Child Traumatic Stress Network.

Pergunta: Qual é o risco real de trauma para essas crianças e quais estão mais expostas?

Resposta: "Primeiro devemos lembrar que essas crianças já sofreram um trauma: não provêm de situações felizes e saudáveis, estão fugindo de situações perigosas em seu país, gangues, violência familiar, abuso sexual. Essas crianças não saem com mentes e corpos sãos.

Quando acrescentamos na vida de uma criança o trauma da separação brutal de seus pais, lhe tiramos uma fonte de proteção e apoio.

Quanto mais nova for a criança, mais o sentirá como uma ameaça. Temerá por sua vida (...) As crianças pequenas têm o cérebro imaturo, dependem muito de seus pais para regular o que não podem regular ainda com seus cérebros e seus corpos".

P: Qual é a urgência para as crianças que estão em abrigos neste momento?

R: "A boa notícia é que uma criança pode melhorar com tratamentos específicos, tratamentos que, certamente, devem incluir um pai.

A participação de um pai é ainda mais determinante na medida em que a criança é menor. O acompanhamento pode fazer desaparecer as mudanças que aconteceram em seus cérebros, seus corpos e suas estruturas psíquicas.

A primeira questão é que ninguém costuma dar a eles informações em seu próprio idioma. As crianças que não entendem o que está acontecendo preenchem o vazio com suas próprias explicações. Podem concluir que a culpa é sua, ou que a culpa é dos adultos que cuidam delas, ou de outras crianças. Podem responsabilizar seus pais.

Também é necessário que estejam tranquilas e que saibam que seus pais estão bem. É essencial que possam estar em contato com seus pais.

A forma de ajudá-las, finalmente, será confrontando-as com essas lembranças, ao invés de evitá-las. Desenvolvendo mecanismos de adaptação. É um processo terapêutico que não poderiam realizar enquanto estivessem detidas, ou separadas de seus pais".

P: Muitas crianças americanas não imigrantes são enviadas a abrigos pelos organismos públicos a cada ano. O que sabemos sobre essas separações?

R: "Nos meus 40 anos de carreira, vi milhares de crianças em abrigos, ou com famílias de acolhida porque foram vítimas de abusos, ou de abandono. Mas, apesar disso, muitas dessas crianças dizem: 'o pior que me aconteceu não foi o abuso físico ou sexual, ou ter que beber água do vaso sanitário; foi quando minha mãe saiu de casa para injetar droga, ou quando minha mãe perdeu a minha guarda'".

É surpreendente que, de acordo com a sua percepção, o pior que lhes tenha acontecido seja o fato de os terem privado da guarda de seus pais. Isso mostra a força do vínculo entre pais e filhos.

Sobre as crianças imigrantes, estavam com pais que arriscaram suas vidas para lhes dar uma vida melhor".