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Internacional

Medo da imigração alimenta crise das democracias ocidentais

22/06/2018 13h49

Washington, 22 Jun 2018 (AFP) - Um tema domina atualmente o debate político nas principais democracias ocidentais e semeia discórdia entre países que foram aliados durante um longo tempo: a imigração.

"Há uma correlação entre a ascensão dos populismos e os nacionalismos e a imigração. Vê-se isso na Europa, com o Brexit e com as eleições italianas, como se viu anteriormente nos Estados Unidos com a vitória de Donald Trump", disse à AFP Erol Yayboke, do americano Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Em nome da política de "tolerância zero" à imigração ilegal do governo Donald Trump para cumprir suas promessas eleitorais antes das eleições de meio de mandato de novembro próximo, filhos de imigrantes foram separados de suas famílias na fronteira entre Estados Unidos e México, onde se encontram na tentativa de fugir da violência na América Central.

O novo governo populista italiano decidiu, por sua vez, bloquear o acesso aos portos do país para o navio humanitário "Aquarius", repleto de imigrantes resgatados no mar por uma ONG.

A acolhida de refugiados também ameaça implodir a coalizão de governo alemã, composta de conservadores e socialdemocratas. A ala à direita do partido da chanceler Angela Merkel pressiona para que o Executivo endureça sua política migratória.

Segundo a ONU, em 2017, havia no mundo 68,5 milhões de refugiados e deslocados, um novo número recorde, o quinto consecutivo na matéria.

O alto comissário da ONU para Refugiados, o italiano Filippo Grandi, pediu um aumento da "cooperação" internacional, estimando que não pode haver uma solução para este drama "país por país".

O que parece dominar, porém, é o fechamento de fronteiras.

"As pessoas tendem a lidar com uma visão simplificada de problemas complexos e, na imigração, isso se traduz em ideias como 'eles vêm roubar nossos empregos e espalhar o caos'", explica Yayboke.

"Dirigentes populistas põem palavras para o que as pessoas sentem, simplificando ao extremo esses temas complicados, e se baseiam nelas como argumento para ganhar votos", afirma.

- Um establishment 'vulnerável' -Uma vez no poder, os problemas explodem, como comprovou o presidente americano, que teve de recuar em seu projeto de separar as famílias de imigrantes diante dos protestos em massa causados pela iniciativa.

"O governo Trump se deu conta de que essas questões são muito mais complexas, provocam emoção", acrescentou o pesquisador.

Já na Itália o poderoso ministro do Interior, Matteo Salvini, líder da Liga, um partido de extrema direita em ascensão, parece ter aumentado sua popularidade com sua postura linha-dura no trato com os imigrantes.

Enquanto a Europa temia que Roma questionasse sua adesão ao euro, o governo italiano "se concentrou, no fim das contas, em um tema no qual o establishment europeu é mais vulnerável: as questões migratórias", escreveu esta semana no "Wall Street Journal" o analista americano Walter Russell Mead.

De acordo com esse professor de Relações Internacionais, trata-se de um tema "três vezes vencedor" para Salvini: "Divide a esquerda e unifica a direita na Itália; desafia o consenso entre as elites europeias; e ele consegue se impor na cena internacional".

Resta saber que posição a opinião pública adotará, quando as trágicas cenas começarem a se multiplicar.

"Os dirigentes políticos de toda Europa vão acompanhar de perto o que acontece. Se sua aposta migratória continuar funcionando, Salvini terá quem o imite", prevê Russell Mead.

A queda de braço com a União Europeia demonstra que os governos ocidentais estão mais divididos do que nunca.

- Contexto explosivo -A referência a um "eixo de voluntários" anti-imigração criado pelos ministros do Interior de Itália, Áustria e Alemanha - os falcões do debate - deflagrou uma polêmica, na qual se evocou o "Eixo Roma-Berlim" entre o fascismo e o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Nesse contexto explosivo, as relações transatlânticas também estão permeadas pela tensão. Liderando nos Estados Unidos uma ofensiva para dobrar um Congresso dividido, o presidente Trump não hesita em estigmatizar Angela Merkel e a Alemanha, um país aliado.

"O povo alemão está-se voltando contra seus dirigentes", tuitou Trump, fazendo referência ao aumento da criminalidade nesse país desde que, em 2015, Merkel abriu as portas para mais de um milhão de demandantes de asilo.

Pouco importa a Trump que os números mostrem o contrário.

"Ser anti-imigrante está no coração do modelo de negócio de alguns partidos populistas de direita. Preferem que o tema continue sob os holofotes a buscar soluções", disse à AFP Stefan Lehne, do "think tank" Carnegie Endowment for International Peace.

Na Europa, apesar da forte queda do número de pedidos de asilo desde 2015-2016, a febre anti-imigrantes "em vez de diminuir aumentou", completou Lehne.

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