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Internacional

Nicarágua retoma diálogo com cidades assediadas pelas forças de Ortega

25/06/2018 21h56

Manágua, 26 Jun 2018 (AFP) - Em meio ao assédio de forças combinadas do governo a várias cidades da Nicarágua, foi retomado nesta segunda-feira (25) o diálogo para conter a violência que deixou mais de 210 mortos em dois meses de protestos que exigem a saída do presidente Daniel Ortega do poder.

Tiroteios, incêndios e operações de limpeza de barricadas, com homens armados e escavadeiras são reportados nos departamentos (estados) de León e Manágua (norte), inclusive em suas capitais. Moradores reportam feridos, mas grupos humanitários ainda não deram um balanço oficial.

"Há explosões muito fortes. Isso é realmente um erro, a repressão não leva a nada, fazemos um apelo às autoridades para que contenham isso. Não queremos mais mortos", disse por telefone, falando de León, o pároco Víctor Morales.

A polícia informou que um agente morreu nesta segunda-feira em Nagarote, a 42 km de Manágua, quando os efetivos "foram agredidos por grupos de delinquentes com armas e morteiros" enquanto realizavam trabalhos de limpeza, informou a instituição em comunicado.

Nagarote parecia uma cidade-fantasma após a forte incursão de antimotins e parapoliciais pela manhã. Todos os estabelecimentos comerciais, incluindo as lojas de seus famosos queijos, estavam fechados e as pessoas se resguardavam em suas casas, constatou a equipe da AFP.

Entretanto, a vice-presidente Rosario Murillo, porta-voz do governo, comemorou o fato de as operações terem permitido a reabertura de vias bloqueadas por manifestantes.

"Deus está nos enchendo de acontecimentos milagrosos (...) Ter conseguido nesta manhã recuperar a mobilidade, a segurança na (rodovia) Pan-americana, estamos falando de Nagarote, estamos falando de La Paz Centro, dar espaço ao trânsito e ao tráfego internacional é um acontecimento milagroso", disse Murillo à imprensa oficial.

A opositora Aliança Cívica reagiu no Twitter: "Condenamos os recentes ataques de forças policiais e parapoliciais em León e Nagarote".

A comissão da Igreja católica, que media o diálogo, reinstalou as mesas de trabalho com delegados do governo e da opositora Associação Cívica pela Justiça e a Democracia - da sociedade civil - para avaliar, como tema primordial, a proposta de antecipar as eleições de 2021 para março de 2019.

O pedido foi apresentado pela Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN) em 7 de junho passado na mesa de diálogo, mas Ortega, cujo terceiro mandato consecutivo termina em janeiro de 2022, pediu tempo para refletir e ainda não se pronuncia a respeito.

A CEN anunciou que seu presidente, cardeal Leopoldo Brenes, viajará nesta terça-feira ao Vaticano com o bispo da Arquidiocese de Matagalpa, Rolando Álvarez, para informar o Papa Francisco sobre a "situação doída e sofrida" da Nicarágua e o progresso do diálogo.

Na ausência de Brenes, a mediação ficará a cargo do bispo de León, Bosco Vivas.

- Cresce a tensão -A reunião é realizada em um momento de intensificação das incursões violentas de forças policiais, parapoliciais e paramilitares a diferentes cidades para retomar seu controle. Só no fim de semana houve uma dezena de mortos em bairros da capital e de outras cidades, segundo o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh).

O Cenidh informou que esses casos elevam para 206 o número de mortos desde o começo dos protestos em 18 de abril. O número é inferior ao de 212 mortos reportados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) antes da violência do final de semana.

"Estes grupos que se vestem à paisana e que andam semeando o terror devem ser investigados, processados e retirados imediatamente", reclamou nesta segunda-feira Álvaro Leiva, secretário da Associação Nicaraguense pró-Direitos Humanos (ANPDH).

Em Masaya, localizada a 35 km da capital, as autoridades tentavam entrar no bairro indígena de Monimbó, cheio de barricadas em todas as suas ruas, segundo Leiva.

Em Diriamba, a 46 km de Manágua, homens encapuzados fizeram disparos de caminhonetes, enquanto outro grupo saqueou negócios, segundo o opositor movimento denominado "Autoconvocados".

Os protestos começaram em 18 de abril contra uma reforma da Previdência social, mas após as mortes de jovens nas marchas, se estenderam para exigir Justiça e a renúncia de Ortega, um ex-guerrilheiro de 72 anos a quem acusam de forjar, com sua esposa e vice-presidente, Rosario Murillo, uma ditadura.

"Nossa luta é por tudo. Queremos a mudança do governo. Têm que partir porque o povo não os quer", disse à AFP um jovem de 25 anos, com o rosto coberto por um lenço, em uma barricada da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNAN), onde se entrincheiram dezenas de estudantes.

Ortega disse estar disposto a trabalhar pela democratização do país, inclusive a separação dos poderes do Estado, atualmente controlados pelo governo, principalmente o Conselho Supremo Eleitoral.

Por outro lado, aliança opositora acusou nesta segunda-feira o governo de Ortega de não mostrar "abertura, nem vontade política" na mesa de diálogo para discutir a democratização país, incluindo a proposta para adiantar as eleições de 2021 para março do 2019.

- Aumenta a pressão -A pressão sobre Ortega aumentou com o informe apresentado na sexta-feira pela CIDH ante o Conselho Permanente da OEA, o qual denunciou a "repressão estatal" e contabiliza 212 mortos, mais de 1.300 feridos e 500 detidos em dois meses.

"Esta é uma situação bastante crítica e é preciso que toda a comunidade internacional preste atenção ao que está acontecendo na Nicarágua", disse Paulo Abrao, secretário-executivo da CIDH, em entrevista à CNN.

Durante esta sessão, uma dezena de governos pediram que "cesse a repressão" e Almagro recomendou uma antecipação das eleições para março no mínimo ou no máximo em 14 meses.

O diálogo foi suspenso três vezes, a última há uma semana porque o governo não tinha convidado organismos internacionais para verificar a situação dos direitos humanos.

Embora rejeite as acusações de uso excessivo da força, o governo aceitou convidar os organismos. No domingo, chegaram a Manágua técnicos da CIDH e na terça-feira será a vez de funcionários do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.

Ortega chegou ao poder em 1979 como um dos comandantes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que liderou a insurreição popular para derrubar o ditador Anastasio Somoza.

Em 1990, perdeu uma eleição antecipada, como a que os nicaraguenses pedem hoje. Depois de 16 anos na oposição, voltou ao poder pela via eleitoral em 2007.

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