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Escola da elite norte-coreana dá aulas de lealdade

31/07/2018 10h43

Pyongyang, 31 Jul 2018 (AFP) - Não é normal encontrar salas de aula equipadas com tanques, simuladores de caça e lança-granadas. Mas a Escola Revolucionária para Jovens de Mangyongdae, perto da capital Pyongyang, não é um estabelecimento de ensino qualquer.

Foi criada inicialmente pelo fundador da Coreia do Norte, Kim Il Sung, para educar os órfãos de pais mortos na resistência contra o colonizador japonês. Atualmente, é a melhor escola do país, uma instituição que tece os vínculos sólidos da elite do país.

Uma estátua de bronze de Kim Il Sung e de seu filho e sucessor, Kim Jong Il, vigia a quadra esportiva. Cartazes que identificam os tipos de armas decoram os corredores.

Há uma sala repleta de armas curtas e outra com um tanque. O tiro é disciplina essencial e existe um local com alvos eletrônicos.

O estabelecimento tem mil alunos que fazem uma formação de nove anos, que costumam concluir aos 18.

As crianças têm a cabeça raspada e vestem uniforme ao estilo militar, conhecido por ter sido concebido pela esposa do primeiro Kim, Kang Pan Sok. A linha vermelha na lateral da calça simboliza sua devoção revolucionária.

Ao deixar a escola, vão entrar nas forças armadas, uma instituição fundamental neste país dotado da bomba atômica.

- "O verdadeiro pai" -Kim Jong Il implementava uma política de "o exército primeiro". O atual dirigente, Kim Jong Un, terceiro na dinastia no poder, aparece regularmente ao lado de oficiais do exército, de um lado, e dirigentes civis, do outro.

Diariamente, os alunos da escola têm seis aulas de 45 minutos. A metade do programa é dedicado à política e à ideologia, quase um quarto a questões militares e o restante a disciplinas clássicas.

As tardes são reservadas a atividades físicas. A sala de musculação retumba com os gritos de incentivo dos alunos, enquanto os outros executam impressionantes movimentos de taekwondo.

Os meninos também são encarregados da manutenção da casa onde nasceu Kim Il Sung, próxima ao estabelecimento.

Também foi construída uma escola para meninas na periferia de Pyongyang, que leva o nome de Kang Pan Sok.

Estas escolas são a menina dos olhos da família Kim. O fundador da Coreia do Norte as visitou 118 vezes; sua esposa, 62; seu filho, 94; e o atual líder norte-coreano até agora fez seis visitas.

"O dirigente supremo, o camarada Kim Jong Un, é o verdadeiro pai de todos os nossos alunos revolucionários", explica a tenente Choe Su Gyong, guia no museu da escola.

- "Flores da revolução" -Também está exposto um fuzil que Kim Il Sung exibiu durante uma viagem. "Os filhos e filhas dos revolucionários devem se tornar flores da revolução, seguindo os passos de seus pais", diz a tenente Choe.

A ocupação japonesa terminou em 1945 e desde então o acesso a esta escola foi estendido a quem tem pelo menos um pai ou um avô considerado fiel servidor do Estado.

"Elegemos os filhos e filhas dos patriotas que lutaram pelo partido, o governo, o país, a mãe pátria e o povo", declara o coronel Kim Yong Ho, diretor-adjunto do departamento de Educação da Escola.

Aqui, as crianças constroem uma rede de amizades e influências que pode durar por toda a vida. Entre os ex-alunos está, além de Kim Jong Il, Yon Hyong Muk, primeiro-ministro entre 1988 e 1992.

"A elite norte-coreana é surpreendentemente fechada a pessoas de fora. É hereditária a um nível inimaginável em outro país comunista", destaca Andrei Lankov, especialista do Korea Risk Group.

O Norte proclama que todos os cidadãos são iguais, mas na verdade, as pessoas são classificadas em função de suas origens sócio-políticas, segundo um sistema preciso e hereditário chamado "songbun". A fidelidade absoluta às autoridades é um fator crucial e estas pessoas, cujos antepassados colaboraram com o inimigo japonês ou foram capitalistas estão na base da escala.

- Prefeririam línguas estrangeiras -Só quem tem um "songbun" positivo pode esperar um lugar em uma universidade da elite ou morar em Pyongyang. A chegada a uma certa forma de economia de mercado começa, no entanto, a abrir as portas aos demais.

Quando foi inaugurada, nos primórdios da República Popular Democrática da Coreia, a Escola Revolucionária usou como modelo as escolas militares Suvorov da antiga União Soviética, destinadas aos filhos dos veteranos falecidos.

Havia, então, quatro facções principais no âmbito do Partido dos Trabalhadores no poder: os partidários que tinham lutado ao lado de Kim Il Sung, os comunistas coreanos, aqueles que foram exilados na China, e os coreanos soviéticos.

À base de expurgos, os fiéis companheiros de armas de Kim Il Sung se tornaram a nata da sociedade.

"Então, a função da escola mudou", acrescentou Lankov. Deve sua importância à "militarização da sociedade norte-coreana nos anos 1960 e à emergência de um culto quase religioso pelos guerrilheiros, apresentados como apóstolos de Kim, o Grande".

Mas pode que não seja tão atraente para as gerações mais jovens: "os bisnetos dos tenazes combatentes foram malcriados e não conhecem mais os valores da simplicidade e da resistência de seus antepassados".

"Prefeririam estudar línguas estrangeiras e programação informática a armas e como matar alguém com uma faca pequena".