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Internacional

Espanha se prepara para chegada de migrantes sem recursos e com improvisos

31/07/2018 16h43

Algeciras, Espanha, 31 Jul 2018 (AFP) - Desde que um bote inflável foi resgatado no Mediterrâneo, na sexta-feira, Glenn Alban não tem dormido direito no porto de Algeciras, uma cidade do sul da Espanha na primeira linha da onda migratória dos últimos meses.

Este rapaz camaronês de 18 anos conta que só recebe duas refeições ao dia: leite e biscoitos no café da manhã, suco e sanduíche para jantar. Está esperando que a Polícia o identifique e lhe permita sair deste porto, um dos maiores da Europa e a poucos quilômetros da África.

"As coisas são difíceis. E faz muito calor", disse à AFP na segunda-feira, apontando para o lugar onde dorme: papelões no chão, protegidos do sol abrasador por uma manta da Cruz Vermelha amarrada como um toldo.

"Não esperava ficar tanto tempo assim. Estou chocado, não posso acreditar", acrescenta Alban, que viveu dois anos no Marrocos antes de viajar para a Espanha, e esperava uma acolhida mais organizada na Europa.

Como ele, milhares de jovens africanos chegaram por mar à Espanha a partir do norte da África, no que se tornou um desafio para as forças de segurança e equipes de salvamento marítimo do governo espanhol.

Recentemente a Espanha ultrapassou a Itália como primeiro ponto de entrada por via marítima de imigrantes irregulares na Europa. Para isso contribuíram a política anti-imigrantes do governo de Roma e a maior vigilância das autoridades líbias.

Em 2018, 22.858 pessoas chagaram por mar à Espanha - mais que durante todo o ano passado - e 307 morreram na tentativa, segundo cifras divulgadas nesta terça-feira pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Só desde sexta-feira, mais de 1.500 migrantes desembarcaram na província andaluza de Cádiz, a maioria delas em Algeciras.

Dezenas de migrantes foram filmados ao chegarem na sexta a uma praia de Tarifa, perto de Algeciras. Aparecem deixando um barco e correndo entre os banhistas, alguns deles nus, a caminho de um pinhal.

- Falta de recursos -Nos últimos dias, as delegacias de polícia e os centros de acolhimento improvisados em ginásios da província de Cádiz estiveram cheios. Muitos migrantes se viram assim abrigados a dormir em uma pequena embarcação dos guarda-costeiros, ou no cais do porto.

Em uma visita a Algeciras no sábado, o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, negou que haja um "colapso" no sistema de recepção de migrantes, e afirmou que a situação está "absolutamente controlada" e é "controlável".

Enquanto isso, a polícia e as ONGs que trabalham com os migrantes denunciam uma falta de meios humanos e materiais e de financiamento.

"São números de migrantes muito significativos, com uma falta de meios muito significativa também", disse à AFP a representante em Cádiz do Sindicato Unificado de Polícia (SUP), Carmen Velayos.

Ela explicou que não há agentes suficientes para fazer os trâmites dos migrantes nas primeiras 72 horas após sua chegada, como estabelece a lei. E isso apesar de que alguns policiais foram trasladados de outros serviços, e de que em certos casos estiveram trabalhando todos os dias durante um mês.

Prova das dificuldades da polícia é que 62 migrantes escaparam no domingo de um armazém de Barbate, na província de Cádiz, que havia sido transformado em abrigo temporário.

- Sobrecarregados -Nos últimos dias, as autoridades não tiveram mantas, colchões e comida suficientes para os migrantes, explica Ana Rosado, ativista da Associação Pró-Direitos Humanos de Andaluzia (APDHA), que facilita ajuda aos resgatados.

Em alguns casos, acrescenta, as autoridades tiveram que pedir aos moradores que deem água e comida aos migrantes. "Estão completamente sobrecarregados", aponta.

A imigração se tornou um tema político desde que o socialista Pedro Sánchez chegou ao poder, em junho, e em um de seus primeiros gestos, decidiu aceitar mais de 600 migrantes rejeitados pela Itália.

O conservador Partido Popular (PP), principal formação opositora, o acusa de criar um "efeito de chamada".

Mas o atual executivo socialista destaca que o aumento de chegadas começou há mais de um ano, e acusa o governo anterior de direita de não se preparar, apesar dos alertas da agência europeia de vigilância de fronteiras exteriores, Frontex.

O ministro do Interior disse que o governo está correndo contra o tempo para abrir um novo centro de recepção de migrantes perto de Algeciras, com capacidade para 600 pessoas.

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