Com nazistas e racistas assumidos, EUA têm campanha para legislativo marcada por discursos radicais

  • House of Representatives / Divulgação

    Casa dos Representantes dos EUA: eleições para os assentos acontecem em Novembro

    Casa dos Representantes dos EUA: eleições para os assentos acontecem em Novembro

Arthur Jones é nazista declarado. John Fitzgerald diz que o Holocausto é mito. Rick Tyler quer tornar os "Estados Unidos branco de novo".

Essas ideias parecem desenterradas do passado, mas voltaram a aparecer na campanha para o legislativo norte-americano deste ano. Os EUA vão às urnas em novembro para escolher 435 deputados e 35 dos 100 senadores.

John Fitzgerald / Reprodução
John Fitzgerald, candidato ao congresso dos EUA, nega que o holocausto judaico tenha existido
Extremismo, intolerância e até mesmo supremacia branca e antissemitismo renasceram na política americana do século XXI. As redes sociais amplificam o discurso de ódio de alguns candidatos e causam constrangimento mesmo entre o Partido Republicano - que abriga grande parte desses políticos.

Em Illinois, Jones, que chamou o Holocausto de "a maior e mais obscura mentira da história" e chegou a publicar um anúncio em um jornal com uma grande suástica, será o candidato republicano disputando vaga no Congresso. Nesse distrito de maioria democrata, Jones ganhou as primárias do partido por não ter concorrentes. 

E os comentários controversos não terminam por aí.

Não há nada de ruim em ser racista. Os judeus são descendentes de Satã

Russel Walker, candidato pela Carolina do Norte

Paul Nehlen / Reprodução
Paul Nehlen, acusado de defender supremacistas e antissemitas, é candidato ao congresso nos EUA
Em Wisconsin, Paul Nehlen, o principal candidato republicano para ocupar a vaga no Congresso, hoje nas mãos do presidente em final da mandato na Câmara, Paul Ryan, tornou-se líder do movimento alternativo. Seus críticos advertem que Nehlen quer dar mais espaço aos nacionalistas brancos e antissemitas.

Já a página online de campanha de Tyler, simpatizante de Trump na corrida para o Congresso no Tennessee, exibe a bandeira confederada (considerada um símbolo de ódio racial), hasteada no alto da Casa Branca. Um de seus cartazes de campanha diz: "Uma América branca outra vez".

Especialistas afirmam que há um número sem precedentes de candidatos radicais este ano, e que seu principal motivador pode ser o presidente dos Estados Unidos.

"O uso pouco ortodoxo de linguagem racista e antimuçulmana, toda essa linguagem própria do fanatismo, abriu uma porta na política que antes não estava aberta", explicou à AFP  Heidi  Beirich, que, como especialista no Southern  Poverty  Law Center (SPLC), rastreia grupos promotores do ódio desde 1999.

"Sempre tivemos alguns neonazistas. Mas isso (o novo discurso político) está tornando a situação muito pior do que era antes", acrescentou.

Fim dos tabus

A aberta intolerância de um candidato teria sido há até pouco tempo sua "sentença de morte", lembrou Beirich.

"Mas derrubando esses tabus e ganhando a Presidência, Trump mostrou um caminho de êxito eleitoral que as pessoas achavam que não funcionaria", argumentou a especialista.

O fanatismo se espalhou pela vida pública. Vários vídeos, nos quais brancos acusam imigrantes, ou afro-americanos, viralizaram. Um deles, no qual se vê agentes retirando dois homens negros algemados de uma loja da Starbucks - sem que tivessem cometido qualquer crime -, deflagrou um debate nacional sobre raça.

As divisões raciais e étnicas estão instaladas na cena política em lugares como a Virgínia, onde o candidato republicano ao Senado, o supervisor anti-imigração do condado de Corey Stewart, está sob pressão por suas controversas companhias.

Stewart disse que Nehlen é um de seus "heróis pessoais" e apareceu ao lado de Jason Kessler, o homem que organizou uma manifestação da supremacia branca em Charlottesville em agosto de 2017.

Desde então, Stewart renegou ambos os extremistas, e a jogada pode ter influenciado alguns eleitores. Em 20 de junho, ganhou as prévias republicanas para o Senado.

Em um debate realizado na semana passada, Stewart insistiu em que "não há um centímetro de seu corpo que seja racista", mas se manteve como um vigoroso defensor do "legado" da Virgínia.

Os 'esquecidos'

Os candidatos extremistas tendem a se multiplicar quando eles e seus seguidores se sentem ignorados, ou não representados, pelos principais partidos - Republicano, ou Democrata.

Em 2016, Trump fez um aceno a milhões de trabalhadores braçais, mineiros do carvão, trabalhadores de fábricas e agricultores, chamando-os de "homens esquecidos".

Stewart diz que o fracasso dos democratas em chegar a esses eleitores contribuiu para um cenário no qual os candidatos extremistas podem prosperar.

O Partido Republicano desautorizou vários deles, incluindo Jones e Nehlen.

Já Trump abraçou os polêmicos republicanos, como o ex-xerife do Arizona Joe Arpaio, que coordenou prisões para imigrantes ilegais que pareciam campos de concentração. Agora, ele é candidato ao Senado.

Segundo Beirich, essa é uma mensagem aos marginalizados pelo Partido Republicano de que há espaço para eles na política.

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