Conselho de Segurança pede investigação confiável sobre ataque no Iêmen

Dahyan/Nova York, Iêmen, 10 Ago 2018 (AFP) - O Conselho de Segurança da ONU pediu nesta sexta-feira (10) uma investigação confiável e transparente depois que pelo menos 29 crianças morreram em um bombardeio da coalizão liderada pela Arábia Saudita que atingiu um ônibus na cidade de Dhayan, no Iêmen.

A cidade continuava muito abalada e no local do ataque - na quinta-feira - ainda era possível ver restos humanos e objetos pessoais das crianças, de menos de 15 anos, informou um jornalista da AFP no local.

Um hospital que tem o apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) cuida de 48 feridos, entre eles 30 crianças.

"Ainda há restos mortais por toda parte, e tentamos confirmar as identidades" dos mortos, disse à AFP Tahya Shahem, autoridade do Ministério da Saúde na região de Saada, norte do Iêmen.

Os funerais serão "mais à frente", acrescentou.

No momento do ataque, o ônibus estava em um frequentado mercado de Dahyan, uma zona no norte do Iêmen controlada pelos rebeldes huthis, segundo o CICV.

A coalizão militar liderada pela Arábia Saudita, que intervém desde 2015 contra os rebeldes, anunciou que vai abrir uma investigação sobre o ataque aéreo, depois de reconhecer ter lançado um bombardeio nessa área, mas garantiu que visava um ônibus no qual viajavam "combatentes huthis".

A embaixadora britânica, Karen Pierce, que ocupa a presidência do Conselho de Segurança da ONU, disse a jornalistas, após uma reunião a portas fechadas sobre o Iêmen que "se alguma investigação que se realize não for crível, o Conselho obviamente vai querer revisá-la".

O Conselho não ordenou uma investigação em separado, mas "agora fará consultas com a ONU e outros sobre a melhor forma de conduzir a investigação", disse Pierce.

Os membros do conselho também expressaram sua "grande preocupação e pediram uma investigação confiável e transparente", afirmou a embaixadora britânica.

A reunião do colegiado foi solicitada por Bolívia, Holanda, Peru, Polônia e Suécia, que não são membros permanentes do Conselho.

O Kuwait, que também é membro não permanente, integra a coalizão saudita que luta contra os rebeldes huthis.

Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, três dos membros permanentes do Conselho, apoiam a coalizão saudita em sua campanha conta os rebeldes huthis no Iêmen, mas expressaram sua preocupação com o alto número de vítimas civis.

"Vimos as imagens das crianças que morreram", disse à imprensa a vice-embaixadora da Holanda, Lise Gregoire-van Haaren. "É essencial neste momento ter uma investigação confiável e independente", acrescentou.

O Conselho não especificou no acordo de declaração para a imprensa se a investigação deveria ser independente, uma exigência expressa na quinta-feira pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que também pediu uma investigação "rápida".

A ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch criticou que o Conselho não tenha exigido uma investigação imparcial. "A triste realidade é que se deu aos sauditas a oportunidade de investigarem a si próprios e os resultados são ridículos", afirmou a vice-diretora da HRW para a ONU, Akshaya Kumar.

A coalizão liderada por Riade intervém no Iêmen para apoiar as forças do presidente Abd Rabo Mansur Hadi. Esse contingente combate os rebeldes huthis que tomaram importantes setores do país, incluindo a capital, Sanaa.

- 'Falta sangue' -Um porta-voz do CICV explicou à AFP que o balanço de vítimas não é definitivo, porque alguns foram transferidos para outros hospitais.

"Falta sangue", alertou Jameel Al-Fareh, um dos médicos das emergências do hospital da cidade de Saada, pedindo doadores.

A coalizão já foi acusada no passado de cometer vários ataques contra civis. Admitiu sua responsabilidade em alguns bombardeios, mas acusa regularmente os huthis de se misturarem com os civis, ou de usá-los como escudos humanos.

Há uma semana a coalizão negou ter lançado ataques que deixaram, segundo o CICV, 55 mortos e 170 feridos em Hodeida, no oeste do Iêmen.

A cidade portuária de Hodeida é controlada pelos huthis, que atribuíram à coalizão a autoria desses ataques. A coalizão rejeita a acusação e responsabiliza os rebeldes.

Membros da minoria zaidi (um braço do xiismo), os rebeldes huthis têm o apoio do Irã, mas Teerã nega qualquer tipo de ajuda militar.

"O mundo precisa realmente ver mais crianças inocentes mortas para deter a cruel guerra do Iêmen?" - reagiu o diretor para Oriente Médio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Geery Cappelaere.

"Os civis continuam pagando o preço mais alto depois de três anos de guerra no Iêmen", lamentou a organização Médicos Sem Fronteiras.

A guerra neste país deixou mais de 10.000 mortos desde que a Arábia Saudita lançou sua intervenção em 2015 e provocou "a pior crise humanitária" do mundo, segundo as Nações Unidas.

Até agora todos os esforços para pôr fim ao conflito fracassaram. A ONU organiza novas negociações em 6 de setembro em Genebra.

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