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Papa expressa 'vergonha' diante do fracasso da Igreja no combate aos abusos

25/08/2018 10h31

Dublin, 25 Ago 2018 (AFP) - O papa Francisco reconheceu neste sábado (25) sua "vergonha" diante do fracasso da Igreja por não ter enfrentado adequadamente os "crimes ignóbeis" do clero na Irlanda, durante seu discurso diante das autoridades políticas e civis deste país.

"O fracasso das autoridades eclesiásticas - bispos, religiosos superiores, sacerdotes e outros - para tratar adequadamente estes crimes repugnantes provoca indignação e continua a causar sofrimento e constrangimento à comunidade católica. Eu mesmo compartilho esses sentimentos", declarou o papa numa intervenção sobre esta questão.

O pontífice direcionou um pensamento particular às "mulheres que no passado sofreram situações de particular dificuldade". "Eu não posso deixar de reconhecer o grave escândalo causado na Irlanda pelos abusos de menores por parte de membros da Igreja encarregados de protegê-los e educá-los".

O papa argentino se referiu ao seu predecessor Bento XVI, que em 2010 havia escrito uma carta a todos os católicos irlandeses.

"Sua intervenção franca e decisiva serve ainda hoje de incentivo aos esforços das autoridades eclesiais para remediar os erros do passado e adotar padrões rigorosos para garantir que não voltem a acontecer", disse Francisco.

"A Igreja na Irlanda teve, no passado e no presente, um papel de promoção do bem que não pode ser ocultado", ressaltou em seu discurso, acrescentando: "Espero que a gravidade dos escândalos dos abusos, que revelaram as falhas de muitos, sirva para enfatizar a importância da proteção dos menores e dos adultos vulneráveis por toda a sociedade."

Por sua vez, o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, pediu ao papa que use sua "posição e influência" para tentar fazer "justiça" às vítimas dos abusos cometidos por membros do clero no mundo inteiro.

"As feridas ainda estão abertas e há muito a ser feito para que as vítimas e sobreviventes obtenham justiça, verdade e cura. Santo Padre, peço que use sua posição e influência para conseguir este feito aqui na Irlanda e em todo o mundo", declarou Leo Varadkar por ocasião da visita do pontífice à Irlanda.

"Devemos garantir que as palavras sejam seguidas de ações", insistiu em seu discurso no Castelo de Dublin, ao lado do sumo pontífice.

Desde 2002, mais de 14.500 pessoas se declararam vítimas de abusos sexuais cometidos por padres na Irlanda.

"É uma história triste e vergonhosa, uma mancha em nosso Estado, nossa sociedade e na Igreja Católica", estimou Varadkar.

O primeiro-ministro irlandês também se referiu ao lugar da Igreja Católica irlandesa, cuja influência, que já foi enorme, vem diminuindo devido aos escândalos de pedofilia e à evolução dos costumes neste país de quase cinco milhões de habitantes.

Francisco, que realiza esta viagem oficial à Irlanda 39 anos depois da passagem de João Paulo II, pediu à população irlandesa que mantenha a fé.

"Rezo para que a Irlanda, enquanto ouve a polifonia da discussão sócio-política contemporânea, não esqueça as vibrantes melodias da mensagem cristã que a sustentaram no passado e que podem continuar a fazê-lo", disse ele.

"A família é o que une a sociedade; seu bem não deve ser visto como garantido, mas deve ser promovido e protegido com todos os meios apropriados", disse Francisco, cujo principal ato durante sua visita à Irlanda será o encerramento do Encontro Mundial das Famílias.

O papa também reconheceu "as dificuldades que as famílias enfrentam na sociedade de hoje em rápida evolução".

Jorge Bergoglio também fez referência ao vigésimo aniversário da assinatura do Acordo da Sexta-Feira Santa na Irlanda. Em homenagem a este acordo de paz, ele elogiou "o ideal de uma família global de nações", atualmente questionado pelo "persistente mal do ódio racial e étnico".