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Papa se nega a comentar acusações de arcebispo

27/08/2018 15h01

Cidade do Vaticano, 27 Ago 2018 (AFP) - O papa Francisco, acusado de conscientemente ter encoberto por cinco anos o cardeal Theodore McCarrick, suspeito de abusos sexuais, não quis comentar as alegações de um prelado conservador italiano, que ocupou as manchetes internacionais nesta segunda-feira.

Um ex-embaixador do Vaticano em Washington, o arcebispo conservador Carlo Maria Vigano, acusa em um texto de onze páginas o papa Francisco de conscientemente ignorar durante seu pontificado todos os relatórios sobre as ações do cardeal americano apresentado como um redador sexual notório.

"Não vou dizer uma palavra sobre isso. Acredito que o comunicado fala por si mesmo", limitou-se a dizer o pontífice, entrevistado no domingo à noite por jornalistas no avião que o trouxe de volta a Roma.

A denúncia coincidiu com a viagem de Francisco à Irlanda, já centrada nos muitos casos de abusos cometidos pelo clero e instituições religiosos no país.

"A corrupção atinge a cúpula da hierarquia da Igreja", afirma Vigano em seu texto.

"Em linha com o princípio proclamado de tolerância zero, o papa Francisco deve ser o primeiro a dar um bom exemplo aos cardeais e bispos que encobriram os abusos de McCarrick e renunciar com eles", insiste o arcebispo italiano.

Ele denuncia não apenas "a cultura do silêncio" na Igreja, mas também "a corrente homossexual" que prevalece nas instâncias mais altas do Vaticano.

"As redes homossexuais presentes na Igreja devem ser erradicadas" porque "estrangulam as vítimas inocentes e vocações sacerdotais", escreve Vigano, ecoando o discurso dos ultraconservadores católicos que igualam homossexualidade e pedofilia.

Entre esses círculos, o papa é visto como um progressista perigoso mais interessado nas questões sociais do que nas tradicionais da Igreja.

Eles se indignaram com o seu chamado a acolher misericordiosamente os gays e transgêneros nas paróquias. Mesmo que Francisco permaneça em linha com a doutrina da Igreja sobre questões de sexualidade e casamento heterossexual.

Suas declarações no domingo à noite sobre a homossexualidade causaram ataques das associações de defesa dos direitos LGBT, que denunciaram palavras "irresponsáveis".

- Homossexualidade e psiquiatria - Em entrevista coletiva no avião que levava Francisco da Irlanda de volta para Roma, o papa argentino recomendou o recurso à psiquiatria, quando os pais observarem tendências homossexuais em seus filhos, a partir da infância.

"Eu lhes diria, em primeiro lugar, que rezem, que não o condenem, que dialoguem, entendam, que deem espaço ao filho ou à filha", afirmou.

"Quando isso se manifesta desde a infância, há muitas coisas a fazer, pela psiquiatria, para ver como são as coisas. É uma outra coisa quando isso se manifesta depois dos 20 anos", declarou Jorge Bergoglio.

O Vaticano acabou por retirar nesta segunda-feira a referência à "psiquiatria" em seu boletima à imprensa. Em sua carta, Vigano aponta que o papa Bento XVI puniu tardiamente o cardeal Theodore McCarrick, entre 2009-2010, proibindo qualquer aparição pública e pedindo-lhe para deixar o seminário onde morava. No entanto, nenhum documento público menciona esta sanção.

Ele acusa o papa Francisco de ter anulado esta sanção, apesar de seus próprios alertas emitidos em junho de 2013, logo após o início de seu pontificado.

Muitas fontes na Igreja questionaram nesta segunda a veracidade dessas supostas sanções pronunciadas por Bento XVI, que foi fotografado em várias ocasiões com o cardeal McCarrick.

O cardeal McCarrick, de 88 anos, foi acusado no final de julho por abusos sexuais e proibido de exercer seu ministério, num escândalo que abalou a hierarquia da igreja americana.