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Em desenhos, artista sírio retrata horrores vividos em câmaras de tortura durante a guerra

Em Yerres (França)

30/08/2018 04h00

"Continuar desenhando é não querer entregar as armas", afirma Najah Albukai, um refugiado sírio na França que, com seus desenhos arrepiantes, narra o pesadelo que viveu em uma prisão perto de Damasco.

Corpos esquálidos, desfigurados pelas pancadas, olhos fundos, mãos escondendo as genitálias... Colados nas paredes de seu apartamento, desenhos assustadores com tinta chinesa mostram os abusos que este ex-professor de artes de 49 anos viu e viveu.

"Na prisão, você fica suspenso entre a vida e a morte. São períodos apocalípticos. Você tem a impressão de estar em um pesadelo", afirma Albukai em entrevista à AFP.

Albukai diante de painel com desenhos feitos para retratar seus tormentos na guerra - Zakaria Abdelkafi / AFP
Albukai diante de painel com desenhos feitos para retratar seus tormentos na guerra
Imagem: Zakaria Abdelkafi / AFP

Como muitos sírios da região de Daraya, reduto rebelde perto de Damasco, Najah Albukai foi contagiado pela febre revolucionária que se apoderou da Síria no início de 2011.

Ele e sua mulher rapidamente se uniram às manifestações pacíficas, reprimidas com mão de ferro pelas forças leais a Bashar al-Assad.

Em 2012, Albukai foi detido e colocado em uma prisão perto de Damasco, administrada pelos serviços de Inteligência sírios.

"Interrogavam várias pessoas ao mesmo tempo. Te interrogavam enquanto torturavam outros junto a você", conta.

As dúzias de desenhos expostos no seu apartamento nos arredores de Paris mostram o horror dos abusos.

Albukai mostra um de seus desenhos: "Desenhar é não querer entregar as armas" - Zakaria Abdelkafi / AFP
Albukai mostra um de seus desenhos: "Desenhar é não querer entregar as armas"
Imagem: Zakaria Abdelkafi / AFP

"Colocavam uma cadeira aqui, debaixo do braço", explica, mostrando com o dedo alguns croquis arrepiantes nos quais um homem está sendo torturado. "Depois se apoiavam na cadeira, para que levantasse, fazendo com o que corpo do prisioneiro se torcesse por completo". "Se você tivesse sorte, vivia algumas semanas."

Entre as surras, Najah passava a maior parte do tempo em uma cela de 5 m x 3 m onde eram amontoados dezenas de prisioneiros. Seus corpos feridos se esfregavam, transmitindo várias doenças.

'Um cheiro terrível'

Depois de um mês preso, sua mulher conseguiu libertá-lo, pagando a um juiz para que retirasse as acusações contra ele. Mas foi novamente capturado no fim de 2014, quando tentou cruzar a fronteira com o Líbano clandestinamente.

Foi enviado de volta à mesma prisão, o centro 227, onde empilhavam corpos de prisioneiros torturados, alguns dos quais não tinham mais de dez anos de idade.

O centro 227 também servia de necrotério temporário para os presos de outros centros de tortura. Os detidos, como Albukai, tinha que descarregar os corpos mutilados que chegavam em caminhões.

"Era de manhã quando transportávamos os cadáveres", conta, mostrando outro desenho. "Muitas vezes o cheiro dos presos mortos havia dois dias era terrível. Alguns tinham sinais de tortura (...) e estavam esqueléticos".

Em um relatório publicado em 2016, a Anistia Internacional estimou que 17.723 pessoas morreram em prisões sírias entre março de 2011 e dezembro de 2015.

Albukai está convencido de que, sem a sua mulher, Abir, não teria sobrevivido. Esta professora de francês, que tinha um salário de US$ 80 por mês (cerca de R$ 360), vendeu seu carro e pediu ajuda à família que vivia no exterior para reunir os US$ 20 mil (cerca de R$ 80 mil) que lhe pediam para libertar seu marido.

Em outubro de 2015, o casal e a filha adolescente conseguiram chegar ao Líbano. A família pediu refúgio na França, onde Albukai está procurando trabalho e uma editora para publicar seus desenhos.

"Talvez tenhamos perdido, e a revolução tenha fracassado", diz. Mas "continuar desenhando é não querer ceder, é não querer entregar as armas. Tenho a impressão de que, se agora eu começar a desenhar flores ou paisagens, significará que entreguei as armas".

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