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De quem é a culpa do tóxico ambiente político nos EUA?

Leah Millis/Reuters
Imagem: Leah Millis/Reuters

25/10/2018 18h53

Violência armada contra membros do Congresso, retórica do presidente carregada de insultos, intimidação de funcionários públicos. E agora, dezenas de pacotes com supostos explosivos enviados a personalidades opositoras: o clima político nos Estados Unidos está cada vez mais difícil. Mas que é o responsável?

Como chegaram a isso?

A política americana esteve marcada por tensões em seus 200 anos de história. Quatro presidentes foram assassinados. A guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate estimularam o descontentamento. Prédios federais foram atacados.

Muitos apontam para a tumultuada presidência do Bill Clinton (1993-2001), que incluiu um fracassado processo de destituição, para explicar o clima atual.

"Realmente acho que isso criou este ciclo muito, muito vicioso no qual estamos agora", disse à AFP Anita McBride, assistente do presidente republicano George W. Bush (2001-2009) e atual acadêmica da American University.

Outro elemento contribuiu para o ambiente tóxico atual: o polêmico resultado eleitoral de 2000, que levou à presidência de Bush e suas incursões no Oriente Médio posteriores aos atentados de 11 de setembro.

E o mandato de Barack Obama, primeiro presidente negro do país, longe de aliviar as tensões raciais, as inflamou. O presidente Donald Trump aproveitou de forma cínica a situação, divulgando falsamente que Obama havia nascido no Quênia.

Uma congressista foi baleada em 2011, e embora o fato tenha sido condenado por todos os legisladores, o sectarismo partidário cresceu.

"Francamente, o clima político no país realmente esteve se deteriorando durante um tempo. E acho que, inclusive, muito antes das eleições de 2016, mas então se intensificou e avança", disse McBride.

Trump tem culpa? 

A temperatura política disparou no país desde que Trump anunciou a sua candidatura, em 2015. "Trump tem grande parte da culpa pelo clima atual", declarou John Pitney, professor do Claremont McKenna College.

O presidente desqualifica os seus oponentes, ridicularizando-os, elogia partidários que ficam violentos nos comícios. Não condenou rapidamente os neonazistas que mataram um contra-manifestante em Charlottesville em 2017, e chama os jornalistas de "inimigos do povo".

Quando os simpatizantes gritam "Prendam-na!" para se referir a sua ex-adversária nas eleições, a democrata Hillary Clinton, Trump sorri.

Regularmente, as estrelas de Hollywood são alvo das críticas de Trump, mas respondem, como fez o ator Robert De Niro em um discurso nos prêmios Tony, em junho.

"Vez e outra, o presidente tolerou a violência física e dividiu os americanos", advertiram os líderes democratas no Congresso, em um comunicado, na quarta-feira (24).

Em plena campanha para as legislativas de 6 de novembro, a demagogia de Trump aumenta, com advertências sobre as "turbas" democratas e o retuíte de um congressista republicano que afirmou, sem provas, que o filantropo George Soros estava financiando a atual caravana de emigrantes centro-americanos rumo aos Estados Unidos.

Alguns especialistas acreditam que exageram a influência de Trump. "Pode ser mais um sintoma do problema que ele causa", declarou o professor associado Timothy  Hagle da Universidade de Iowa.

Mas outros, como o senador republicano Jeff Flake, acham que Trump é responsável. "As palavras importam, especialmente quando um líder de governo as diz".

Os democratas também são responsáveis? 

Alguns democratas pediram urgentemente uma ação agressiva contra Trump e sua equipe.

A congressista da Califórnia Maxine Waters, um dos alvos das supostas bombas artesanais enviadas por correio e a quem Trump chama de uma "pessoa com quociente intelectual", incitou que seus partidários "rejeitem" os membros do gabinete em restaurantes ou lojas.

O ex-diretor da CIA John Brennan, outro destinatário dos pacotes suspeitos, qualificou o comportamento de Trump em uma reunião com seu contraparte russo, Vladimir Putin, como "nada menos que traição", causando indignação na Casa Branca.

O procurador-geral de Obama, Eric Holder, pediu este mês uma oposição mais enérgica aos republicanos, dizendo que "quando eles caírem, nós chutaremos".

Dias depois, Trump devolveu o golpe na emissora Fox: "É melhor você ter cuidado com o que está desejando". Um pacote suspeito enviado a Holder foi interceptado na quarta-feira.

Também houve casos de violência. No ano passado, um homem que trabalhou para a campanha presidencial do democrata Bernie Sanders abriu fogo contra congressistas republicanos, ferindo gravemente o representante Steve Scalise.

A própria Hillary Clinton reavivou as tensões este mês quando disse que "a civilidade pode começar novamente" quando os democratas recuperarem o controle do Congresso.

"Muitos políticos democratas estão estimulando isso ativamente", disse à NBC o senador republicano Ted Cruz.

Irá impactar as legislativas? 

E 6 de novembro já está muito perto, e os republicanos lutam para manter a maioria no Congresso.

Trump, com o objetivo de incitar sua base, insiste em gerar alarme sobre a caravana migrante que atualmente atravessa o México.

Mas as supostas bombas enviadas apresentam novas interrogações: os conservadores do lado de Trump já sugeriram que são parte de uma conspiração democrata para captar votos.