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May visita Argentina, onde aspiração sobre Malvinas ressurge com Brexit

Getty Images
Imagem: Getty Images

29/11/2018 16h56

A histórica visita da primeira-ministra britânica, Theresa May, à Argentina, para participar da cúpula do G20 neste fim de semana ocorre em um momento em que o país parece decidido a reafirmar sua reivindicação sobre as ilhas Malvinas, aproveitando o Brexit.

O ministro argentino das Relações Exteriores, Jorge Faurie, provocou um alvoroço em outubro, ao afirmar que seu país poderia tirar partido das incertezas causadas pela próxima saída da União Europeia para reforçar seus laços com as Malvinas e reiterar sua reivindicação deste arquipélago britânico situado no Atlântico sul.

Neste contexto, esta primeira visita de um chefe de governo britânico a Buenos Aires desde a guerra das Malvinas em 1982 se apresenta como uma ocasião para melhorar as relações.

No entanto, os 3.400 habitantes das ilhas, situadas a 400 km da costa argentina e a 12.700 km de Londres, insistem em que sua soberania não é negociável.

Mas o Brexit lhes dá motivo para se preocuparem: se o Reino Unido deixar a UE sem um acordo, a economia das Malvinas, muito dependente das exportações de lula sem taxação aos países europeus, poderiam sofrer um duro revés.

As Falklands, como são chamadas em inglês, estão sob a administração do Reino Unido desde 1833. Mas a Argentina nunca renunciou a reivindicar estas ilhas áridas e varridas por ventos fortes desde que os britânicos fincaram ali sua bandeira.

Em abril de 1982, a ditadura argentina invadiu o território, que os britânicos, então governados por Margaret Thatcher, retomaram 74 dias depois.

"Maior conexão" 

Jorge Faurie disse à AFP em Nova York que seu país conversa com Londres sobre a possibilidade de "criar maior conexão com as ilhas". Na terça-feira (27), a chancelaria britânica anunciou ter alcançado um acordo com Buenos Aires para estabelecer uma nova conexão aérea entre São Paulo com Malvinas, fazendo escala na cidade argentina de Córdoba, uma vez ao mês em cada direção.

"Ainda há muito espaço para crescer em termos de confiança entre dois países", afirmou Faurie.

E acrescentou: "Nossa expectativa é que a reconstrução da confiança bilateral (...), constituía uma espécie de base para discutir todas as demais questões sobre a soberania das Malvinas".

Após a saída do Reino Unido no próximo 29 de março, os outros 27 países da UE já não deverão apoiar sua reivindicação de territorialidade.

Nesse contexto, o Brexit surge como uma oportunidade para as relações anglo-argentinas em um momento em que Londres busca negociar acordos comerciais com países terceiros e a Argentina tenta se recuperar após a grave crise econômica.

"A grande perspectiva para a Grã-Bretanha é obter importações agrícolas muito baratas", mas "os argentinos podem dizer que só querem chegar a um acordo sobre alimentos se houver um acordo paralelo sobre as Malvinas", diz à AFP  Richard  Lapper, especialista sobre a América Latina no 'think-tank' londrino Royal  Institute of International  Affairs.

Jimena  Blanco, especialista sobre a Argentina no gabinete de assessores Verisk  Maplecroft, destaca que o presidente Maurício Macri aborda a questão de uma "forma mais moderada" que a Cristina Kirchner.

Agora "se entende que faz falta uma política de estado sustentada pela qual as futuras gerações de habitantes das Malvinas, já que não viam a Argentina como uma ameaça, mas como um vizinho com o qual poderiam querer ter uma relação especial", explica.

Ameaça de um Brexit sem acordo

Em sua qualidade de território europeu ultramarino, as Malvinas têm um acesso sem taxação ao mercado único europeu.

Noventa e quatro por cento de suas exportações de pesca vão para a UE, através do porto de Vigo e constituem 40% do PIB do arquipélago, onde outros principais setores econômicos são carne e lã.

Estima-se que um Brexit sem acordo reduziria em até 16% a receita do governo das Malvinas, prejudicando sua capacidade para financiar os serviços públicos e os investimentos em infraestrutura.

A instauração de tarifas alfandegárias "eliminaria a UE como um mercado para as exportações de carne" e "não há, realmente, um mercado alternativo" para sua lula além do sul da Europa, destaca Richard  Hyslop, conselheiro do governo das Malvinas.

"A indústria pesqueira é um grande êxito para as Malvinas e não queremos comprometer isso", disse à AFP.

Mas o estabelecimento de rotas comerciais alternativas com a Argentina ainda parece distante, visto que segue vigente a legislação da era Kirchner, dirigida a atravancar o desenvolvimento econômico das Malvinas.

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