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Amigo ou inimigo? Russos se dividem sobre legado de Bush pai

01/12/2018 21h43

Moscou, 1 dez 2018 (AFP) - Os russos homenagearam neste sábado o ex-presidente americano George H.W. Bush por seu papel no fim da Guerra Fria, um marco histórico que também deixou ressentimento, uma vez que o país perdeu seu status de superpotência.

Na Rússia, relembrou-se a reunião de cúpula histórica entre Bush e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachov em foi proclamado o fim da União Soviética (URSS), em dezembro de 1989, semanas após a queda do Muro de Berlim.

Após décadas de Guerra Fria, e em plena corrida militar entre Washington e Moscou, Bush mostrou seu apoio ao projeto de reformas de Gorbachov, conhecido como Perestroika.

Dois anos mais tarde, quando a Rússia se encontrava mergulhada no caos, Bush afirmou: "Somos a única superpotência", o que irritou os russos.

O presidente russo, Vladimir Putin, classificou hoje George H.W. Bush de "homem espetacular", mas não citou o fim da URSS, um colapso descrito no passado por Putin como "maior catástrofe geopolítica do século XX".

- 'Não o perdoam' -"Muitos russos não perdoam o colapso da URSS", explica Konstantin Kalachev, do Political Expert Group, think tank de Moscou. Ele lembra que o governo Bush prometeu a Gorbachov que a Otan não mobilizaria suas forças nos países do Leste Europeu.

O descumprimento desta promessa "tornou-se o principal motivo da crise diplomática entre a Rússia e o Ocidente", afirma Konstantin Kosachev, presidente da comissão de Relações Internacionais do Senado russo. Não obstante, no começo dos anos 1990, o nome de Bush estava associado ao "acordo de paz" entre Rússia e Estados Unidos, lembra.

"Acredito que Bush foi muito sincero em sua vontade de estabelecer boas relações com a URSS e, posteriormente, com a Rússia", defendeu Kosachev no Facebook.

Após o fim da Guerra Fria, Gorbachov classificou Bush de "verdadero aliado".

- Distante da era Bush -"Era um momento dramático, que requeria uma grande responsabilidade de cada um. O resultado foi o fim da Guerra Fria e da corrida militar", lembra Kosachev, que agradeceu a Bush por sua contribuição "em um momento histórico".

Em 1991, Gorbachov e Bush assinaram o tratado de redução de armas estratégicas (Start I), em que as duas superpotências se comprometeram a diminuir o desenvolvimento de armas nucleares.

Mas a intervenção dos Estados Unidos no Iraque na primeira guerra do Golfo quebrou a confiança entre Moscou e Washington, explica Kalachev.

Três décadas depois da reunião de cúpula entre Bush e Gorbachov, Estados Unidos e Rússia se encontram praticamente em uma nova situação de Guerra Fria, como refletem o conflito na Ucrânia e a disputa entre as duas potências na Síria.

Rússia e Estados Unidos se acusam mutuamente de não respeitarem o sistema global de controle de armas, e o futuro do New Start, que sucedeu o Start I, é incerto.

A relação tensa entre Rússia e Estados Unidos viveu um novo capítulo após a decisão de Trump de não se reunir esta semana com Putin em Buenos Aires, onde aconteceu a reunião de cúpula do G20. A situação atual tem pouco a ver com a era Bush, afirma Kosachev.