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Governo francês busca respostas após caos durante protestos em Paris

02/12/2018 18h25

Paris, 2 dez 2018 (AFP) - O presidente francês, Emmanuel Macron, dirigiu neste domingo uma reunião de emergência do Executivo, um dia após uma jornada de caos em toda a França e cenas de violência em Paris, em plena escalada do conflito com os "coletes amarelos", que se tornou uma grave crise política.

Recém-chegado de Buenos Aires, onde participou da reunião de cúpula do G20, o presidente francês foi até o Arco do Triunfo, um dos lugares onde houve mais violência, para observar os estragos. Durante a visita, foi vaiado por alguns manifestantes.

Em seguida, Macron dirigiu uma reunião de emergência com alguns de seus ministros, a fim de encontrar uma resposta para um movimento que parece fugir de qualquer controle.

- 'Violência sem precedentes' -

A violência em Paris foi de "uma gravidade sem precedentes", lamentou neste domingo o chefe da polícia Michel Delpuech. Um total de 412 pessoas foram detidas, "um nível nunca alcançado nas últimas décadas", assinalou Delpuech em entrevista coletiva, lamentando a "violência extrema e inédita" contra as forças de ordem, com "lançamento de martelos e bolas de aço".

Cerca de 136 mil pessoas participaram do terceiro sábado de protestos organizados em toda a França pelos coletes amarelos, o que representa um aumento em relação ao número de manifestantes nos protestos da semana anterior, dos quais participaram 106 mil pessoas, segundo o governo francês.

Os distúrbios de ontem, de dimensão inédita em Paris, deixaram 133 feridos, entre eles 23 membros das forças de segurança. Incidentes também foram registrados no restante do território francês.

O Senado francês anunciou neste domingo que convocou para terça-feira os dois ministros da segurança para darem "explicações sobre os meios estabelecidos pelo Ministério do Interior" no sábado.

Macron acusou os manifestantes violentos de quererem apenas o "caos". Seu ministro do Interior, Christophe Castaner, não descartou a possibilidade de decretar estado de emergência, para evitar um novo surto de violência no próximo fim de semana.

Segundo o presidente, os distúrbios "nada têm a ver com a expressão de descontentamento legítimo" dos "coletes amarelos", um movimento social de franceses que, inicialmente, opunha-se ao aumento do preço dos combustíveis e, depois, expandiu-se para o problema do poder de compra, e que acusa o governo de Macron de tratá-los com desprezo e intransigência.

Após a violência deste sábado, algumas vozes do poder sugeriram que haverá mudanças, pelo menos na forma da ação governamental.

"Pecamos por estarmos muito distantes da realidade dos franceses", declarou o novo líder do partido de Macron, LREM (A República em Marcha), Stephane Guerini.

Ontem à noite, Castaner reconheceu que o governo "se ateve a discutir a necessidade de se abandonar o petróleo", já que a explosão da ira popular foi devido a um projeto de imposto sobre o combustível destinado a financiar a transição ecológica.

Mas a oposição e parte dos "coletes amarelos", movimento sem estrutura nem líder claro, reclamam um forte gesto do governo, começando com uma moratória ou um congelamento do aumento dos impostos sobre os combustíveis.

À direita, o presidente do partido Republicanos, Laurent Wauquiez, reiterou seu apelo à organização de um referendo sobre a política ecológica e fiscal de Emmanuel Macron. Marine Le Pen (extrema direita) pediu para ser recebida por Macron com os outros líderes dos partidos políticos de oposição.

À esquerda, o líder dos socialistas, Olivier Faure, exigiu medidas voltadas para o poder de compra.

Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical, pediu o restabelecimento do imposto sobre as grandes fortunas, enquanto aplaudiu "a rebelião cidadã" que "faz tremer o mundo do dinheiro".

Diante das reivindicações, o governo anunciou medidas de auxílio (verificações de energia, bônus de conversão), mas descartou qualquer mudança de direção. Neste domingo, seu porta-voz, Benjamin Griveaux, reiterou esta posição, "porque o curso é o certo".

Diante da dificuldade de canalizar para uma estrutura de negociação um movimento popular nascido fora de qualquer estrutura, Griveaux lembrou a disposição do governo em dialogar, assegurando que o Executivo "está pronto" para discutir com representantes dos coletes amarelos.

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