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Papa Francisco pede medidas concretas ao abrir reunião contra pedofilia

21/02/2019 10h29

Cidade do Vaticano, 21 Fev 2019 (AFP) - O papa Francisco pediu nesta quinta-feira aos líderes da Igreja de todo o mundo que adotem "medidas concretas" para combater a pedofilia, na abertura de uma reunião histórica no Vaticano sobre o tema que abala a Igreja.

"O povo de Deus nos observa e espera não óbvias e simples condenações e sim medidas concretas e eficazes", afirmou o pontífice diante de quase 200 líderes religiosos.

"Escutemos o grito das crianças que pedem justiça", clamou o papa ao convidar patriarcas, cardeais, arcebispos, bispos e superiores religiosos a encarar a "praga dos abusos sexuais" cometidos por membros da Igreja.

Esta é a primeira vez na história que os líderes da Igreja católica se reúnem a pedido do papa para debater um crime odioso, que minou a credibilidade da instituição em todos os continentes e que foi acobertado e negado durante décadas.

"Peço ao Espírito Santo que nos ajude nestes dias a transformar este mal em uma oportunidade para tomar consciência e como purificação", disse.

O dia começou com um momento de oração, seguido por um vídeo comovente com depoimentos de cinco vítimas e as palavras de introdução de Francisco, que viu seu pontificado ofuscado pela multiplicação de denúncias nos Estados Unidos, Chile, Austrália e Espanha.

O pontífice latino-americano deseja mudar a mentalidade dos bispos com um método jesuíta, com três dias de debates, discursos, reuniões intercaladas com orações, mas sobretudo com os depoimentos comoventes de vítimas de abusos sexuais.

"Nossa comunidade deve saber que estamos fazendo de modo sério. Seremos os paladinos de sua segurança, de seus filhos e jovens. Vamos dar a vida pelo rebanho que nos confiaram", afirmou o arcebispo maltês Charles Scicluna, um dos maiores especialistas sobre o tema e um dos organizadores da reunião.

Desde que explodiram os primeiros escândalos há 35 anos, a hierarquia da Igreja católica adotou uma série de medidas preventivas, aprovou leis, pediu desculpas e anunciou condenações, mas sem conseguir acabar com o que é conhecido como "cultura de acobertamento", ou seja o silêncio.

- Medidas contundentes -As leis canônicas reconhecem um vínculo teológico, como o que existe com o pai, entre o bispo e seus padres, o que representa um aspecto muito difícil de mudar, explicou o alemão Hans Zollner ao falar sobre os princípios que regem os mais de 5.000 bispos da Igreja católica.

"Nossa falta de resposta ao sofrimento das vítimas, chegando a rejeitá-las e a acobertar os escândalo para proteger os autores e a instituição, deixaram uma profunda ferida em nossa relação com aqueles a quem fomos enviados para servir", afirmou o cardeal filipino Luis Antonio Tagle.

O tema da prestação de contas será abordado na sexta-feira, enquanto o sábado ficará concentrado na transparência.

O discurso do papa no domingo para encerrar o encontro gera muitas expectativas.

Apesar do tom duro prometido e da introdução do delito contra menores no início de seu pontificado, Francisco não conseguiu em seis anos o apoio concreto dos episcopados para combater a pedofilia com armas judiciais civis, com algumas exceções.

Os organizadores da reunião esperam, por este motivo, o anúncio de uma série de medidas a curto, médio e longo prazo.

"Pedimos que apliquem com rigor e rapidez as leis que existem. Que entreguem os criminosos à justiça civil. Não apenas os que abusam, como também os que acobertam", afirmou o chileno Juan Carlos Cruz, uma das 12 vítimas de varias partes do mundo recebidas na quarta-feira no Vaticano.

De modo paralelo à reunião da Igreja, um evento foi organizado em Roma com vítimas de todos os continentes e que tem o apoio de várias organizações internacionais de combate à pedofilia.

"O tempo das palavras passou. Queremos atos concretos, a aplicação de medidas contundentes em poucas semanas", resumiu o italiano Francesco Zanardi, da Rede L'Abuso.