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Supremacistas brancos fazem o jogo do jihadismo, afirmam especialistas

18/03/2019 11h57

Paris, 18 Mar 2019 (AFP) - O supremacista branco australiano Brenton Tarrant matou 50 fiéis em mesquitas da Nova Zelândia, alegando lutar contra o que considera "invasores" muçulmanos e contra o islamismo radical, mas, ao cometer este ato de terror, acabou fazendo o jogo dos "jihadistas" - afirmam especialistas ouvidos pela AFP.

O objetivo desses movimentos, seja a Al-Qaeda, seja o grupo Estado Islâmico (EI), é criar um fosso entre a comunidade muçulmana e o restante do mundo para chegar a uma guerra total entre "fiéis" e "infiéis", segundo os especialistas.

Para os extremistas, um ataque como o de Christchurch é uma bênção, o que torna os autores desse tipo de ataque úteis para o movimento "jihadista" internacional, acrescentam pesquisadores.

"O ato de Christchurch é uma bênção para o Daesh (acrônimo do EI em árabe)", diz à AFP Alain Chouet, ex-chefe do Departamento de Inteligência de Segurança no DGSE (o órgão francês de Inteligência Estrangeira), especialista em islamismo radical.

"Ele faz o jogo dos que pretende combater", acrescenta. "Isolar o mundo muçulmano do restante do mundo, exacerbar todas as formas possíveis de antagonismo entre os muçulmanos e os outros", completa.

"Isso começou com o ideólogo (do jihadismo, o egípcio Sayyd) Qutb, e seu livro 'Marcos na rota do Islã' (em tradução livre)", continua Alain Chouet.

"É necessário separar os muçulmanos do restante do mundo, se reunir em algum lugar e lutar, de lá, para estabelecer um califado mundial", descreveu.

"Colocando-se no nível dos assassinos do Daesh, caras como esse Tarrant legitimam sua ação", insiste.

- Círculo vicioso -Para o diretor de Estudos na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), Farhad Khosrokhavar, "o Daesh pretendia radicalizar o conflito no Ocidente, colocando os muçulmanos ocidentais contra as sociedades em que eles vivem".

"A extrema direita violenta, ao proceder da mesma maneira por meio da violência cega, criou esse clima de violência generalizada, onde os muçulmanos são levados a agir violentamente contra as sociedades ocidentais e estas se envolverão no mesmo tipo de ação. Isso cria um círculo vicioso propício para criar a guerra generalizada entre muçulmanos e não-muçulmanos", diz ele à AFP.

"Criar esse espírito de vingança generalizado dos dois lados é jogar o jogo do Daesh", reforça.

Algumas horas após o massacre em duas mesquitas da Nova Zelândia, chamados por vingança começaram a aparecer nas redes sociais, postados por simpatizantes da causa jihadista em diferentes partes do mundo.

Em seu manifesto de 74 páginas publicado on-line antes dos ataques contra as mesquitas, Brenton Tarrant menciona, entre os elementos que motivaram sua passagem para a ação, a morte de uma garota de 11 anos na Suécia, em um atentado em abril de 2017. O ato foi cometido por um uzbeque de 39 anos, que depois comemorou ter destruído "fiéis".

"Eu não podia mais virar as costas para a violência", escreveu.

Os dois especialistas ouvidos pela AFP insistem em que responder a atos dessa natureza, atacando mesquitas com arma automática, é cair na armadilha montada pelos ideólogos da Jihad.

Em Christchurch, uma bandeirola fixada perto de um memorial improvisada declara: "Nós nos colocamos ao lado dos nossos irmãos e irmãs muçulmanos". Um haka, a famosa dança tradicional do povo maori, foi encenado no domingo perto dos locais dos atentados por motoqueiros neozelandeses.

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