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O trauma de um sobrevivente dos centros de 'reeducação' para muçulmanos na China

22/03/2019 21h05

Istambul, 23 Mar 2019 (AFP) - Nos centros de "reeducação" para as minorias muçulmanas da China, o dia começa com cantos patrióticos e segue com sessões de autocrítica e comidas à base de porco, cujo consumo é proibido no Islã, explica à AFP um sobrevivente.

Omir Bekali, de 42 anos, diz ter passado várias semanas no outono de 2017 em um destes campos em Karamay, em Xinjiang, no oeste da China, onde vivem várias minorias muçulmanas, entre eles os uigures e os cazaques.

Nesta região, sob uma forte vigilância policial, estariam detidos até um milhão de muçulmanos dentro destes centros de "reeducação política", segundo especialistas e organizações de defesa dos direitos humanos.

Pequim desmente estas acusações e afirma que se trata de "centros de formação profissional" contra a "radicalização" islamita. Uma espécie de "campus", declarou na semana passada o vice-ministro chinês das Relações Exteriores, Le Yucheng.

Deste "campus", Bekali saiu traumatizado. Ele é um dos poucos sobreviventes que, através de conferências no exterior, quer divulgar sua passagem por estes centros. A maioria prefere se manter em silêncio, por medo de pôr em risco suas famílias na China.

Bekali descreve um dia a dia baseado em humilhações, todas com um mesmo objetivo: extirpar dos internos a mínima presença de crença religiosa.

"Todas as manhãs, de 7h a 7h30, tínhamos que cantar o hino nacional chinês. Cantávamos juntos, 40 ou 50 pessoas, em frente a um muro", explica, enquanto revive a cena na sala de seu modesto apartamento, em um bairro popular de Istambul.

"Não queria cantar. Mas à força de repeti-lo diariamente, entrou. Faz mais de um ano que saí de lá, mas a música continua ressoando na minha cabeça", insiste.

- Barba e orações proibidas -Nascido em Xinjiang, de pais uigur e cazaque, duas das principais etnias muçulmanas que vivem na zona, Bekali emigrou ao Cazaquistão em 2006 para buscar trabalho, como grande parte dos cazaques nascidos na China, e obteve a nacionalidade deste país.

Os problemas começaram em 23 de março de 2017, quando foi detido em Xinjiang durante uma viagem de trabalho para sua agência de turismo cazaque.

Após passar sete meses na prisão por acusações de ajuda ao "terrorismo", foi enviado a um campo de "reeducação".

"Havia professores, artistas, idosos. Eram terroristas?", se pergunta.

Uma das obrigações que os internos tinham que cumprir era comer porco às sextas-feiras, dia santo para os muçulmanos, segundo Bekali.

Estes "estudantes" também eram proibidos de falar em outro idioma que não fosse o chinês, assim como rezar ou deixar a barba crescer. As autoridades consideravam que estes eram sinais de "radicalização".

Se pôde sair em novembro de 2017 foi, segundo ele, graças à intervenção das autoridades do Cazaquistão.

Hoje em dia, Bekali não tem notícias de seus pais nem de seus irmãos, que continuam na China.

Após ser libertado, foi embora do Cazaquistão para se instalar na Turquia com sua mulher e seus filhos.

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