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Justiça chilena condena Igreja católica a indenizar vítimas de abusos sexuais de ex-sacerdote

27/03/2019 19h10

Santiago, 27 Mar 2019 (AFP) - A justiça do Chile condenou a Igreja católica local a pagar uma indenização de cerca de 450 mil dólares por "dano moral" a três vítimas de abusos sexuais praticados pelo ex-sacerdote Fernando Karadima.

Numa decisão unânime, a qual cabe ainda recurso, a Corte de Apelações de Santiago acolheu a demanda contra a Igreja católica e ordenou o pagamento de 100 milhões de pesos (cerca de 145 mil dólares) a cada uma das vítimas: o médico James Hamilton, o filósofo José Andrés Murillo e o jornalista Juan Carlos Cruz, informou o Poder Judiciário chileno.

A decisão revoga uma sentença de 2017 e "declara procedente a ação indenizatória" por "dano moral" contra os três demandantes, que se tornaram os principais personagens da defesa das vítimas de abusos sexuais cometidos por integrantes da Igreja no Chile.

"Hoje o estado do Chile deixa claro que todas as instituições são garantidoras e devem proteger os direitos dos cidadãos e que ninguém, por poderoso que seja, pode abusar e encobrir abusos sexuais impunemente", disse Hamilton em uma coletiva de imprensa.

Fernando Karadima, ex-influente religioso e formador de vários bispos, foi condenado em 2011 pelo Vaticano por abuso sexual de menores e relegado a uma vida de oração e penitência. No ano passado, foi expulso do sacerdócio, conforme orientação do Papa Francisco de "tolerância zero" com os abusos.

Responsável pela paróquia de El Bosque, situada em um bairro de alta classe de Santiago e na qual esteve à frente entre 1980 e 2006, Karadima forjou sólidas ligações com setores da elite política e econômica do Chile.

"Isto ajuda a todos nós que passamos por este horror e por isso estamos contentes", escreveu Juan Carlos Cruz em seu perfil no Twitter.

- Negligência sem encobrimento -A sentença judicial desta quarta-feira considera que a Igreja foi negligente ao não investigar as denúncias de abusos apresentadas pelas três vítimas de Karadima, mas estabelece que "não há prova alguma que leve a acreditar na hipótese de encobrimento ou cumplicidade" por parte do ex-arcebispo de Santiago, Ricardo Ezzati, afastado do cargo no sábado passado pelo Vaticano, e do cardeal Francisco Javier Errázuriz, procurado pelas vítimas para denunciar a conduta do religioso.

"Nem o senhor Ezzati nem o senhor Errázuriz tiveram conhecimento dos abusos cometidos", acrescenta o documento judicial.

A decisão da justiça também acusa a Igreja de não ter observado ou exercido corretamente seu dever de vigilância sobre o sacerdote Fernando Karadima.

Também credita-se o "dano psicológico" sofrido por Hamilton, Murillo e Cruz à consequência dos abusos e da negligência da Igreja, que pediu perdão em varias ocasiões por este e outros casos similares.

"Apesar da decisão excluir que tenha ocorrido encobrimento dos abusos por parte da Arquidiocese, a resolução atribui responsabilidade à instituição pelos erros que reconhecemos desde o começo: a forma como foram encaminhadas as denúncias apresentadas pelos demandantes, a inadequada avaliação das mesmas e a falta de acompanhamento às vítimas", informa um comunicado da Arquidiocese de Santiago.

No texto, a Igreja chilena afirma que não vai recorrer da sentença anunciada nesta quarta-feira "e procederá para cumpri-la".

"Foi difícil chegar a uma conclusão. Houve um pouco de demora, mas nenhum encobrimento (...) Nunca teria encoberto Fernando Karadima", disse o cardeal Errázuriz, após tomar conhecimento da decisão judicial.

- Caixa de pandora -Quando denunciaram os abusos de Karadima em 2010, Hamilton, Murillo e Cruz abriram uma caixa de pandora que trouxe à luz a "cultura de abusos" na Igreja chilena que foi reconhecida pelo papa Francisco e que encontra paralelos nos casos de pedofilia protagonizados por representantes do clero em países como Estados Unidos e Austrália. Como medida de ação, a justiça canônica expulsou vários bispos e sacerdotes no último ano

No Chile, há 158 casos abertos contra de religiosos ou laicos que trabalham na Igreja local, em denúncias que envolvem 219 pessoas investigadas e 241 vítimas, das quais 123 eram menores de idade quando sofreram os abusos sexuais.

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