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Nova tentativa de May para salvar Brexit parece fadada ao fracasso

2019-05-22T18:05:00

22/05/2019 18h05

Londres, 22 Mai 2019 (AFP) - A última tentativa da primeira-ministra britânica, Theresa May, de acabar com meses de bloqueio parlamentar sobre seu polêmico acordo do Brexit parece condenada ao fracasso, depois de decepcionar tanto pró-europeus como eurocéticos.

Em uma intervenção perante a Câmara dos Comuns, May detalhou o projeto, adiantado no dia anterior, para um Acordo de Retirada que será publicado na sexta-feira.

"A oportunidade oferecida pelo Brexit é grande demais e as consequências de seu fracasso são sérias demais para arriscar mais atrasos", disse ela aos deputados na véspera de uma eleição europeia que, até muito recentemente, ninguém no Reino Unido pensava celebrar, quase três anos após o referendo de 2016, em que 52% dos britânicos votaram a favor da saída da União Europeia.

"Rejeitar ele e tudo o que temos diante de nós será divisão e estagnação", acrescentou a primeira-ministra, que, diante da crescente rebelião interna em seu Partido Conservador, já prometeu deixar o cargo depois dessa nova votação marcada para o começo de junho, seja qual for o resultado.

Seus problemas pioraram quando Andrea Leadsom - uma das partidários mais fervorosas do Brexit em seu gabinete - anunciou sua renúncia como representante do governo no Parlamento devido à gestão de May nessa crise.

"Parei de acreditar que nossa estratégia atende aos resultados do referendo de 2016" que o Brexit aprovou, disse a ministra em um comunicado.

Fazendo concessões que rompem com alguns dos limites que ela mesmo havia estabelecido ao iniciar as negociações com Bruxelas há dois anos, May propôs na terça-feira aos deputados uma quarta votação do acordo incluindo, entre outras questões, a possibilidade de decidir sobre a convocação de um segundo referendo e uma união aduaneira temporária com a União Europeia.

Também há garantias sobre os direitos dos trabalhadores e a proteção ambiental.

- Insuficiente para os trabalhistas -Todas essas são exigências apresentadas pelo Partido Trabalhista da oposição durante as seis semanas de negociações que terminaram em fracasso na sexta-feira. Mas eles não foram suficientes para convencer seu líder, Jeremy Corbyn, que considerou-as mal integradas e sem garantias.

É "pouco mais do que uma versão melhorada de seu acordo rejeitada três vezes", disse ele ao Parlamento. "Talvez a retórica tenha mudado, mas o acordo não mudou", acrescentou.

Após a consulta de junho de 2016, no qual 52% dos britânicos votaram a favor do Brexit, o Reino Unido deveria ter abandonado a União Europeia (UE) em 29 de março.

Mas o Parlamento rejeitou de modo veemente em três ocasiões o Tratado de Retirada que May assinou em novembro com Bruxelas, o que levou a primeira-ministra a aceitar um adiamento "flexível" do Brexit: até 31 de outubro, mas o país pode sair antes se conseguir superar o bloqueio político.

Tudo isto contribui para um cenário de caos político, que provoca estragos nas empresas britânicas: nesta quarta-feira as autoridades anunciaram a falência do grupo siderúrgico British Steel, que tem 4.500 funcionários e reconheceu passar por graves problemas de liquidez devido, em particular, ao impacto da incerteza do Brexit em sua atividade.

- Inaceitável para os conservadores -A "nova" proposta de May, que os críticos consideram "mais do mesmo" com alguns retoques, não convenceu os conservadores que desejam um Brexit "duro", muito menos os trabalhistas favoráveis à manutenção de laços estreitos com a UE.

A imprensa britânica afirma que até mesmo alguns integrantes do governo de May tentam convencê-la a não submeter o plano ao Parlamento para evitar uma nova humilhação.

O ministro do Meio Ambiente, Michael Gove, deu a entender que a decisão a respeito da votação pode ser revisada.

E um dos mais fervorosos opositores a May e a seu acordo para o Brexit entre os conservadoras, o ex-ministro das Relações Exteriores Boris Johnson, criticou a ideia no Twitter.

"Agora nos pede que votemos sobre uma união alfandegária e um segundo referendo. O projeto de lei vai contra o nosso programa, não votarei por ele", escreveu Johnson, que já se declarou oficialmente como candidato para suceder May no comando do partido, do governo e das negociações com Bruxelas.

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