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Narcotraficante mexicano Chapo Guzmán é condenado à prisão perpétua

17/07/2019 13h14

Nova York, 17 Jul 2019 (AFP) - A Justiça americana sentenciou Joaquín "El Chapo" Guzmán à prisão perpétua mais um período simbólico de 30 anos, nesta quarta-feira (17), e ordenou que o ex-chefe da máfia devolva US$ 12,6 bilhões dos lucros de seus crimes.

Os advogados do narcotraficante já anunciaram que vão recorrer da sentença.

O governo americano garante que o ex-chefe do cartel de Sinaloa, de 62 anos e considerado o maior narcotraficante do planeta após a morte do colombiano Pablo Escobar, foi responsável pela importação, ou tentativa de importação, de pelo menos 1.213 toneladas de cocaína, 1,44 tonelada de base de cocaína, 222 quilos de heroína, quase 50 toneladas de maconha e "quantidades" de metanfetaminas para os Estados Unidos, ao longo de 25 anos.

Após um julgamento de três meses, um júri o declarou culpado, em 12 de fevereiro, pelos dez crimes de tráfico de drogas, posse de armas e lavagem de dinheiro, dos quais havia sido acusado. Por lei, o juiz federal do Brooklyn Brian Cogan era obrigado a aplicar a prisão perpétua.

A Procuradoria exigia ainda mais 30 anos pelo uso de armas de fogo, como metralhadoras, para cometer crimes ligados ao tráfico de drogas. A recomendação foi aceita pelo juiz.

"As provas esmagadoras apresentadas durante o processo mostraram que (Joaquín Guzmán) foi o chefe impiedoso e sanguinário do cartel de Sinaloa", que ele codirigiu entre 1989 e 2014, escreveu o procurador federal do Brooklyn, Richard Donoghue, em sua acusação antes da sentença.

Durante o julgamento, a acusação apresentou provas de que "El Chapo" ordenou a morte, ou torturou e matou ele mesmo, pelo menos 26 pessoas, incluindo informantes, rivais do tráfico, policiais, sócios e até familiares.

Pouco depois da abertura da audiência nesta quarta, Guzmán se expressou oralmente pela primeira vez desde a sua extradição para os Estados Unidos, em janeiro de 2017.

Ele afirmou que foi privado de um julgamento justo e denunciou as condições de sua prisão, afirmando ter sido "torturado física, psicológica e mentalmente 24 horas por dia".

"A justiça não foi feita", afirmou.

Antes de o juiz pronunciar sua pena, o ex-assistente de um colaborador de "El Chapo", Alex Cifuentes, contou que o criminoso ofereceu US$ 1 milhão por sua cabeça.

"Sou um milagre divino, porque Guzmán tentou me matar", disse Andrea Fernandez Velez, que chorou durante todo depoimento.

Protagonista de duas espetaculares fugas de prisões mexicanas, "El Chapo" está detido desde sua extradição em isolamento quase total em um presídio de segurança máxima de Manhattan. Deve cumprir sua sentença na prisão de Colorado ADX Florence, conhecida como a "Alcatraz das Montanhas Rochosas" e considerada a mais segura dos Estados Unidos.

- Uma 'narconovela' verdadeira -O julgamento de três meses foi uma fascinante viagem a um dos maiores e mais impiedosos cartéis da droga, um drama com um elenco impressionante: seus próprios protagonistas.

Durante o processo, a Procuradoria convocou 56 testemunhas, incluindo 14 ex-sócios, amigos e até uma amante de "El Chapo" que fugiu com ele nu, correndo por um túnel, assim como agentes do FBI, da DEA e de outras agências do governo americano.

O júri ouviu conversas de "El Chapo" com seus sócios e viu pacotes de cocaína, lança-granadas e rifles de assalto apreendidos com o chefão do tráfico.

As testemunhas relataram como "El Chapo" comprava toneladas de cocaína na Colômbia a 3.000 dólares o quilo e as revendia nos Estados Unidos por até 35.000 dólares o quilo, com a cumplicidade de corruptos funcionários do México.

Nesta quarta, o juiz também ordenou o embargo de cerca de 12,6 bilhões de dólares em bens de "El Chapo", a quantia que teria acumulado por traficar droga para os Estados Unidos.

"A sentença pedida pelo Estado, a perpetuidade com 30 anos, é uma piada", disse seu advogado Eduardo Balarezo.

"A condenação e a prisão de Joaquín (...) não vão mudar nada na guerra contra as drogas", completou.

Em entrevista à AFP, a procuradora especial de Nova York para as drogas, Bridget Brennan, reconheceu que a retirada de Joaquín Guzmán de circulação não diminuiu a influência do cartel de Sinaloa.

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