Topo

Oposição de direita e esquerda se une contra reeleição de Morales na Bolívia

16/10/2019 09h23

La Paz, 16 Out 2019 (AFP) - Carlos Mesa, candidato opositor com possibilidades de vencer Evo Morales nas eleições do próximo domingo na Bolívia, conseguiu somar o apoio dos setores de esquerda e direita na noite de terça-feira, quando pediu ao país que decida "entre o caminho autoritário da ditadura e o caminho da construção democrática".

Mesa endureceu seu discurso no encerramento da campanha em La Paz, enquanto aumentava a pressão para Oscar Ortiz, terceiro nas pesquisas, renunciar a favor da unidade de oposição que busca impedir a terceira reeleição de Morales, no poder desde 2006.

Mesa pediu para que se derrote o presidente aymara de esquerda nas pesquisas e nas urnas.

"Esses 14 anos (de governo) acabaram e acabaram como deveriam acabar, com o voto popular", afirmou.

A decisão de Morales de buscar um quarto mandato é considerada pela oposição algo inconstitucional e ilegal.

O discurso de Mesa conseguiu angariar todo o espectro político de oposição na última etapa da campanha.

"Pode não ser meu favorito (Carlos Mesa), mas vou votar nele porque não quero mais Morales", disse o empresário Branko Marinkovic, o último dos líderes de direita que se encontra asilado desde 2010 no Brasil, depois de ter sido acusado por Quito de ter planos federalistas para a próspera região de Santa Cruz (leste).

No outro extremo, o esquerdista Juan del Granado, ex-prefeito de La Paz e ex-aliado político de Morales, também declarou seu apoio a Mesa.

"Vou pedir às pessoas que votem em Carlos Mesa", declarou à imprensa.

Mesa já obteve o apoio do empresário de centro-direita Samuel Doria Medina e, no final de semana passado, acrescentou o do ex-presidente de direita Jorge Quiroga, um incansável promotor de uma campanha internacional contra o venezuelano Nicolás Maduro, junto com seu colega colombiano Andrés Pastrana.

Historiador, jornalista e ex-governador de 66 anos, Mesa segue em segundo lugar em todas as pesquisas de opinião, atrás de Morales.

Desde um referendo em fevereiro de 2016 que rejeitou uma nova candidatura de Morales, a oposição reivindica um único candidato para derrotar o presidente de esquerda.

A presença na campanha de dois candidatos de oposição, Mesa e o senador da oposição Óscar Ortiz, causou uma dispersão das intenções de voto, o que favorece Morales implicitamente.

Mesa fez um último esforço de unidade há alguns dias, em um anúncio transmitido pela televisão: "Apesar das nossas diferenças, Óscar Ortiz (em terceiro) e eu compartilhamos ideias".

"Hoje têm apenas dois candidatos que podem ganhar: o candidato ilegal e eu. Por isso, peço seu voto, porque ainda estamos a tempo de unir os que não querem mais cinco anos de Morales", acrescentou.

- Morales contra-ataca -Morales contra-atacou no mesmo dia com um comício em Santa Cruz, reduto opositor, acusando seus adversários de pretender unir a Bolívia ao chamado "Grupo de Lima", formado por vários países da América do Sul que, segundo ele, "são submissos aos Estados Unidos e são governos privatizadores".

"Enquanto estivermos unidos seguiremos derrotando os que não gostam do povo boliviano", declarou o presidente para milhares de partidários.

A multidão vestiu a cor azul do Movimento Ao Socialismo (MAS), o partido de Morales, para receber o presidente na avenida central conhecida como "Cambódromo".

Dezenas de policiais foram mobilizados para evitar que jovens radicais de direita atacassem os partidários de Morales, que acabaram enfrentando os agentes com paus e pedras.

A polícia de choque, que utilizou bombas de gás lacrimogêneo, deteve cerca de 30 pessoas, denunciou o opositor Comitê Cívico pró-Santa Cruz.

Em seu discurso, Morales destacou os sucessos econômicos de seus 13 anos de governo, como a redução da miséria de 38% para 15%, segundo dados oficiais, e prometeu que ao concluir o novo mandato, em 2025, "a miséria será inferior a 5%".

O presidente lidera todas as pesquisas, mas alguns levantamentos apontam para um segundo turno com a presença de Mesa.

As eleições gerais de domingo, além de eleger presidente e vice-presidente, renovarão todas as cadeiras na Câmara dos Deputados (130) e Senado (36).

jac/rb/pb/rsr/cn

Notícias