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Panelaço, invenção chilena, volta às ruas graças às redes sociais

23/10/2019 20h12

Santiago, 23 Out 2019 (AFP) - O panelaço, uma forma de protesto criada no Chile nos anos 1970, volta a ser protagonista em meio a uma revolta social sem precedentes no país, potencializada pelo poder onipresente das redes sociais.

"Colher de pau diante dos seus disparos e, no toque de recolher, panelaço", diz um trecho da música da cantora Ana Tijoux que evoca esta prática de contestação.

Os primeiros panelaços foram feitos pela burguesia chilena, que inaugurou esta forma de protesto para demonstrar seu cansaço com o governo de Salvador Allende (1970-1973).

Ao cair da noite, mulheres dos bairros abastados de Santiago demonstravam, ao bater em frigideiras, caçarolas e panelas, seu descontentamento com o socialismo diante da escassez de produtos de primeira necessidade.

Foi um símbolo da polarização social, que resultou no golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, que depôs o governo de Allende e abriu o caminho para a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

"A direita tem duas panelinhas/ uma pequenina, outra grandinha. / A pequenina, que acaba de comprar, usa para bater", entonava em tom de deboche a banda de folclore esquerdista Quilapayún, em 1972.

Mais tarde, já durante a ditadura, setores populares chilenos se apropriaram desta forma de protesto por medo da repressão.

"Não havendo nenhuma outra fórmula de protesto nas ruas porque se recebia imediatamente um tratamento brutal, encontrou-se uma forma ruidosa, a partir das casas, porque havia toque de recolher, então não se podia sair. E isso [o panelaço] teve muito êxito", afirma o historiador e acadêmico Gabriel Salazar.

- Panelaço em outros países -Em 2011, convocados por estudantes - naquela época já via redes sociais -, os chilenos voltaram a bater seus utensílios de cozinha para exigir educação pública, de qualidade e gratuita.

Hoje voltam a ser usados, ampliados por diferentes setores.

"Todas as classes sociais participam. Os panelaços têm sido ouvidos nesta ocasião do bairro alto de Santiago até os populares, mais ainda do que na época de Pinochet, porque nunca vimos naquela época as pessoas saindo para fazer panelaço nas ruas em plena luz do dia em frente à escola militar com os militares em forma", diz Salazar.

O barulho das panelas também foi usado em diferentes circunstâncias em outros países da América Latina. O Uruguai as fez repicar para expressar oposição à ditadura militar entre 1973 e 1985.

Mais tarde, na Argentina, os panelaços ressurgiram durante a crise econômica de 2001 e 2002. Também desde 2013 na Venezuela usa-se para manifestar descontentamento com o governo de Nicolás Maduro, em meio a uma profunda crise econômica.

"Ficou enraizado como forma de protesto, de manifestação crítica contra o sistema que não envolve repressão imediata. Não é partidário, mas sim crítico ao modelo", explica Salazar.

"Não são 30 pesos, são 30 anos", diz hoje o rap de Tijoux no Chile, referindo-se à alta na tarifa do metrô, medida que desatou na semana passada os protestos ao som do bater nas panelas.

msa/pa/ltl/mvv/db

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